"... Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
..."
publicado com o título " diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu " em atrama.blogspot.com
9.2.11
6.2.11
pensar é complexo, problemático, incerto, obscuro...
.
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Alberto Caeiro - InConjuntos
.
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Alberto Caeiro - InConjuntos
.
4.2.11
recipiente para sentir
.
vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro
vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido
e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.
vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro
vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido
e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.
3.2.11
27.1.11
a pele que as máscaras deixam ver
.
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)
estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)
estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas.
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)
verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia
Metalinguagem - Dicionários online Priberam e Infopédia.
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![]() |
| estigma(tismo) ao espelho - estudo de óculos para ajuste da percepção da vida técnica mista sobre tela 79x55 cm |
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)
estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)
estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas.
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)
verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia
Metalinguagem - Dicionários online Priberam e Infopédia.
.
6.1.11
4.1.11
.
Sei como é bom adormecer alguém! Deixar que a nossa voz presente, embale suavemente os ouvidos que nos devolvem um respirar mais profundo e repousante, as mãos ausentes passeantes pelo cabelo que sabemos sempre esticado e perfeito, pousado numa das nove ou sete almofadas estendidas pela cama.
Ao reler "Pedro, Lembrando Inês" do Miguel Júdice, encontrei o poema "Acordar" e as palavras que me lembraram a voz que adormecia.
"Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada de fora
de nós, é tudo o que temos na vida. "
.
2.1.11
1.1.11
a pele que as máscaras deixam ver
.
A sensação/realidade presente durante a construção dos trabalhos a apresentar, foi de
permanente diagonal, a queda. Sabia que a qualquer momento podia estatelar-me no chão, as oblíquas da horizontalidade obrigavam-me a cheirar o chão que pisava, tornando quase impossível a verticalidade.
.
28.12.10
A pele que as máscaras deixam ver
Texto quase integral, encontrado com máscaras simples em 2009
" Máscara Higiénica
Esta máscara não é um EPI ( Equipamento de Protecção Individual )
Certifique-se sempre que as máscaras são as adequadas e estão devidamente ajustadas. Como qualquer máscara, o uso incorrecto ou o não seguimento das instruções, pode levar a doenças graves ou incapacidadedevido, à exposição em atmosferas perigosas...
Aviso:... Apenas e só, devem ser usadas para reduzir o desconforto provocado pela exposição a partículas não tóxicas e para ajudar a proteger o produto da respiração do utilizador. "
18.12.10
.
por traz dos olhos
fundo onde permanece
a reserva de favos
que o fogo impetuoso
ainda não destruiu
resiste a cera que suporta
o mel cristalino e puro
que vou tragando
que dissonância
sobreponho ao indecifrável
timbre que me arde e rebenta
de não ouvir tocar em movimento
que cedo afirmei
que dissonância impiedosa
me troca o tempo que atiro
como se ontem fosse dúvida
que não devia existir
e que dissonância soa
quando o pólen incandescente
que é a norma iniciática
está em face de moldagem
e arrefecimento consistente
que a raridade me faz perceber
que a excepção confunde a regra
tenho que engolir as palavras
que o mel me dá
e beija-las quando os lábios
se encontrarem na rua escolhida
certa pelo fuso e hora
que podem não ser
descongelo o meu tempo
que nada frio dissone a essência
inquestinável
.
por traz dos olhos
fundo onde permanece
a reserva de favos
que o fogo impetuoso
ainda não destruiu
resiste a cera que suporta
o mel cristalino e puro
que vou tragando
que dissonância
sobreponho ao indecifrável
timbre que me arde e rebenta
de não ouvir tocar em movimento
que cedo afirmei
que dissonância impiedosa
me troca o tempo que atiro
como se ontem fosse dúvida
que não devia existir
e que dissonância soa
quando o pólen incandescente
que é a norma iniciática
está em face de moldagem
e arrefecimento consistente
que a raridade me faz perceber
que a excepção confunde a regra
tenho que engolir as palavras
que o mel me dá
e beija-las quando os lábios
se encontrarem na rua escolhida
certa pelo fuso e hora
que podem não ser
descongelo o meu tempo
que nada frio dissone a essência
inquestinável
.
4.12.10
Tenho, por estes longos e deliciosos dias, confrontado-me com a vida no seu estado mais puro. Uma vontade imensurável de a amar em toda a sua plenitude; nos problemas, na angústia das permanentes incertezas, no trabalho que estou a desenvolver para um evento expositivo para Janeiro, nas pequenas coisas que vou soltando em forma de escrita e na disponibilidade desejada para sentir os outros e deixar que me sintam a mim.
Ontem, em conversa intensa e interessante, que a determinada altura transbordou do leito normalmente sereno e fluído do meu rio, por questões de semântica e amplitude compreensiva toldada, pressenti que a inundação não prevista, não podia estar relacionada com as nuvens que tinham acabado de passar. Inconsequente, a almofada adormeceu-me.
Ao acordar, lembrei-me do Antoni Tàpies e de um artigo que escreveu em 1970, " Nada é Mesquinho", em que ele faz o esforço de tentar explicar por palavras, o que a todo o instante lhe é solicitado sobre a sua obra - " Além disso, pensamos também: não é o meu trabalho, para isso existem os críticos e os comentadores de arte que o podem fazer. Mas os remorsos que nos provoca a constância de tanta gente de boa fé não param de espicaçar-nos. ... Geralmente, quem pergunta quer saber qualquer coisa de uma obra determinada, ou até apenas de um sinal ou de um fragmento concreto. E hoje,..., o sentido de uma obra não se encontra sequer na própria obra, pois a obra está relacionada com muitas outras, próprias ou alheias. Explicar uma obra de arte já é quase fazer toda a história da arte do nosso tempo." Recorrendo a parábolas e metáfora, remetendo para situações comparativas com outras artes e posturas de contemplação e práticas da arte em outras civilizações, continua o esforço. "...Olhemos finalmente para uma determinada obra minha, posto que o leitor deve querer saber de uma vez por todas como é que me vou desenvencilhar de tudo isto. E vamos pegar numa difícil, para ser mais engraçado. Numa que foi discutida e a propósito da qual alguém me disse, apesar de ser meu amigo, ser-lhe impossível ver nela fosse o que fosse. Trata-se de uma obra feita com fibra vegetal, uma espécie de filamentos de palha muito frisadas que se costumam utilizar para atapetar ou encher colchões. Intitula-se "Palha e Madeira".
A obra é uma tela branca, com palha entrelaçada colada e dividida em duas partes por uma ripa de madeira. Meticulosamente vai descrevendo a simbologia utilitária e cultural da palha, material pobre e de utilização desqualificada,"...E tudo isto não é por sentimentalismo nem por qualquer gosto "artístico" pela miséria, mas sim para fazer compreender a " naturalidade primeira" da dialética e da luta de todas as coisas,...", bem como a importância do dois resultante da divisão,"...Os entendidos em simbolismos aplicados à arte - embora, prudentemente, quase nunca extraiam de tudo isto consequências práticas - dir-nos-iam, claro, muito sobre mais coisa do que eu sobre este dois: a oposição, o conflito, a reflexão, o equilíbrio ( ou o desequilíbrio em potência), o criador e a coisa criada, o preto e o branco, o masculino e o feminino, o yin e o yang, a vida e a morte, o bem e o mal, o alto e o baixo."
Quando me perguntam pela vida, tenho maiores dificuldade em a mostrar que o Tàpies tem em relação à sua Obra; não tenho o génio nem a mestria ou erudição e vida vivida que o Mestre tem, por isso vou cita-lo, "...Para o pintor existe apenas um monte de palha, e um dois. E ainda um dois que é um. E todos têm o direito a dizer-lhe, se quiserem, que é um farsante, que tudo isso é falso, que é um engano. Porque ele julga o mesmo. Um quadro não é nada. É uma porta que conduz a outra porta. A arte, por mais excelente que seja, será sempre mais uma manifestação da "maya", do engano que tudo é. E nunca encontraremos a verdade que procuramos num quadro, pois esta aparecerá depois da última porta que o contemplador souber franquear com o seu próprio esforço. E quanto mais importante for o quadro, e mais importantes as personagens nele pintadas, e mais cores e mais camadas de tinta nele houver, mais espesso será o véu que nos ofusca a verdade e menos encontraremos o caminho."
Embora tenha iniciado o texto de forma optimista, de vez em quando também me apetece fazer como o Mestre, embora a componente do sonho esteja suspensa, "...E então, penso que mais vale virar costas a tudo e sentarmo-nos numa cadeira, como um dia me disse a minha companheira que fiz num sonho; uma cadeira a flutuar no meio da brancura do espaço infinito; e, de repente, olhar para a terra e sentir aquela emoção tão intensa e sublime que a fez chorar vivamente ao ver espalhadas umas migalhas de coisas, nada, uns resíduos ligeiros, uns fios de palha..."
O frémito impulsionador que me impele para a incontornável afirmação de algumas coisas na vida, que não sei separar da arte, não é ofuscado por caldeirões de ouro que me vão seduzindo para descansar. Gosto da palha para repousar o espírito, mesmo que me incomode o corpo.
O galgar das margens afinal aconteceu, pela preocupação afectuosa de perceberem se o pão que tenho que conquistar, ainda estava em farinha ou no forno a cozinhar.
As citações foram retiradas do livro
" Antoni Tàpies - a prática da arte "
Edições Cotovia
Ontem, em conversa intensa e interessante, que a determinada altura transbordou do leito normalmente sereno e fluído do meu rio, por questões de semântica e amplitude compreensiva toldada, pressenti que a inundação não prevista, não podia estar relacionada com as nuvens que tinham acabado de passar. Inconsequente, a almofada adormeceu-me.
Ao acordar, lembrei-me do Antoni Tàpies e de um artigo que escreveu em 1970, " Nada é Mesquinho", em que ele faz o esforço de tentar explicar por palavras, o que a todo o instante lhe é solicitado sobre a sua obra - " Além disso, pensamos também: não é o meu trabalho, para isso existem os críticos e os comentadores de arte que o podem fazer. Mas os remorsos que nos provoca a constância de tanta gente de boa fé não param de espicaçar-nos. ... Geralmente, quem pergunta quer saber qualquer coisa de uma obra determinada, ou até apenas de um sinal ou de um fragmento concreto. E hoje,..., o sentido de uma obra não se encontra sequer na própria obra, pois a obra está relacionada com muitas outras, próprias ou alheias. Explicar uma obra de arte já é quase fazer toda a história da arte do nosso tempo." Recorrendo a parábolas e metáfora, remetendo para situações comparativas com outras artes e posturas de contemplação e práticas da arte em outras civilizações, continua o esforço. "...Olhemos finalmente para uma determinada obra minha, posto que o leitor deve querer saber de uma vez por todas como é que me vou desenvencilhar de tudo isto. E vamos pegar numa difícil, para ser mais engraçado. Numa que foi discutida e a propósito da qual alguém me disse, apesar de ser meu amigo, ser-lhe impossível ver nela fosse o que fosse. Trata-se de uma obra feita com fibra vegetal, uma espécie de filamentos de palha muito frisadas que se costumam utilizar para atapetar ou encher colchões. Intitula-se "Palha e Madeira".
A obra é uma tela branca, com palha entrelaçada colada e dividida em duas partes por uma ripa de madeira. Meticulosamente vai descrevendo a simbologia utilitária e cultural da palha, material pobre e de utilização desqualificada,"...E tudo isto não é por sentimentalismo nem por qualquer gosto "artístico" pela miséria, mas sim para fazer compreender a " naturalidade primeira" da dialética e da luta de todas as coisas,...", bem como a importância do dois resultante da divisão,"...Os entendidos em simbolismos aplicados à arte - embora, prudentemente, quase nunca extraiam de tudo isto consequências práticas - dir-nos-iam, claro, muito sobre mais coisa do que eu sobre este dois: a oposição, o conflito, a reflexão, o equilíbrio ( ou o desequilíbrio em potência), o criador e a coisa criada, o preto e o branco, o masculino e o feminino, o yin e o yang, a vida e a morte, o bem e o mal, o alto e o baixo."
Quando me perguntam pela vida, tenho maiores dificuldade em a mostrar que o Tàpies tem em relação à sua Obra; não tenho o génio nem a mestria ou erudição e vida vivida que o Mestre tem, por isso vou cita-lo, "...Para o pintor existe apenas um monte de palha, e um dois. E ainda um dois que é um. E todos têm o direito a dizer-lhe, se quiserem, que é um farsante, que tudo isso é falso, que é um engano. Porque ele julga o mesmo. Um quadro não é nada. É uma porta que conduz a outra porta. A arte, por mais excelente que seja, será sempre mais uma manifestação da "maya", do engano que tudo é. E nunca encontraremos a verdade que procuramos num quadro, pois esta aparecerá depois da última porta que o contemplador souber franquear com o seu próprio esforço. E quanto mais importante for o quadro, e mais importantes as personagens nele pintadas, e mais cores e mais camadas de tinta nele houver, mais espesso será o véu que nos ofusca a verdade e menos encontraremos o caminho."
Embora tenha iniciado o texto de forma optimista, de vez em quando também me apetece fazer como o Mestre, embora a componente do sonho esteja suspensa, "...E então, penso que mais vale virar costas a tudo e sentarmo-nos numa cadeira, como um dia me disse a minha companheira que fiz num sonho; uma cadeira a flutuar no meio da brancura do espaço infinito; e, de repente, olhar para a terra e sentir aquela emoção tão intensa e sublime que a fez chorar vivamente ao ver espalhadas umas migalhas de coisas, nada, uns resíduos ligeiros, uns fios de palha..."
O frémito impulsionador que me impele para a incontornável afirmação de algumas coisas na vida, que não sei separar da arte, não é ofuscado por caldeirões de ouro que me vão seduzindo para descansar. Gosto da palha para repousar o espírito, mesmo que me incomode o corpo.
O galgar das margens afinal aconteceu, pela preocupação afectuosa de perceberem se o pão que tenho que conquistar, ainda estava em farinha ou no forno a cozinhar.
As citações foram retiradas do livro
" Antoni Tàpies - a prática da arte "
Edições Cotovia
1.12.10
Trago sempre comigo um livro, se poder chamar livro a um objecto que quando o abro à procura do que me está à acontecer, do que ainda pode vir, do que não sei dizer ou não encontro forma de esclarecer me responde sem página marcada nem linha sublinhada. Deixa-me, sem nada pedir, levar-lhe palavras significativas e fica inteiro. Quando volto, encontro-o sempre refeito e sinto-lhe o prazer da conversa. Os livros são assim quando os tornamos nossos, vivem ao nosso lado, respira-nos os olhos e alimentam-nos sempre.
" A intensidade de uma dor suscita não a paciência nem a aceitação mas a negação e o ressentimento. Perante a agressão anónima do corpo o espírito perde a tranquilidade e é incapaz de se sobrepor à violência que o nega e o confunde. A esta negação natural o espírito opõe a violência de uma negação gratuita e inoperante. O ser não pode construir nenhum abrigo, uma vez que a dor é a ruptura insuperável de qualquer construção e a imposição e exposição do insuportável para a qual não existe nenhum subterfúgio nem estratégia de abafamento ou de redução. Para esses momentos o construtor não tem nenhum plano, apenas a sala vazia que não sabe como preencher e que provavelmente ficará vazia.
O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa "
" A intensidade de uma dor suscita não a paciência nem a aceitação mas a negação e o ressentimento. Perante a agressão anónima do corpo o espírito perde a tranquilidade e é incapaz de se sobrepor à violência que o nega e o confunde. A esta negação natural o espírito opõe a violência de uma negação gratuita e inoperante. O ser não pode construir nenhum abrigo, uma vez que a dor é a ruptura insuperável de qualquer construção e a imposição e exposição do insuportável para a qual não existe nenhum subterfúgio nem estratégia de abafamento ou de redução. Para esses momentos o construtor não tem nenhum plano, apenas a sala vazia que não sabe como preencher e que provavelmente ficará vazia.
O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa "
24.11.10
19.11.10
.
atravessa-me um silvo
inquietação pura latejante
não sei se pela impossibilidade
da pele ou pele que não é minha
nem as trombetas celestiais
que os anjos sopram
em andamento divino
têm força pacificadora
só a ceia que me espera
permite que durma sobressaltado
e descanse no mel que tenho
agarrado à boca
que nenhuma escova
pode disfarçar
.
atravessa-me um silvo
inquietação pura latejante
não sei se pela impossibilidade
da pele ou pele que não é minha
nem as trombetas celestiais
que os anjos sopram
em andamento divino
têm força pacificadora
só a ceia que me espera
permite que durma sobressaltado
e descanse no mel que tenho
agarrado à boca
que nenhuma escova
pode disfarçar
.
17.11.10
A primeira postagem, "click neural", iniciador do blog ( etiquetas a primeira ) começa com "O tempo não espera pela vida" e acaba com " que coisa, a vida é tempo". A assência do conceito permanece, embora se possa questionar a significação de tempo.
Entendo que cada um tem o seu tempo, tem a sua vida única, preciosa e que não lhes podemos pedir para saltem de uma vida para outra, sem tempo para enfrentarem os medos da mudança e mais importante, limparem a vida anterior e ter menos dúvidas sobre a que vem.
Tenho a sorte, de ter percebido que estou inteiro, de peito aberto, desejoso, com fome do que está para vir. Não vou saltar de olho vendados! Entendi que tudo o que me espera, a intensidade, a suavidade, o mel, o polén, o algodão, quando acontecem, o devemos querer até ao limite da elasticidade que o tempo pode suportar, sem quebrar.
Tenho a idade que me permite "saber", que desperdicei muita vida em pouco tempo, o que não é nada de especial, mas conta para alguma coisa. Permite-me ainda saber que quando nos acontecem coisas bonitas, únicas, arrebatadoras o que pensamos estar a perder, ou ter perdido, encontramos como que por golpe mágico e cristalizamos muito do que está para vir.
Vou congelar o meu tempo, embora contrariado, para acertarmos os nossos relógios, relativizando o "click neural" iniciador. Como não consigo hibernar, nem quero, a vida está a ser vivida em "jet lag".
Entendo que cada um tem o seu tempo, tem a sua vida única, preciosa e que não lhes podemos pedir para saltem de uma vida para outra, sem tempo para enfrentarem os medos da mudança e mais importante, limparem a vida anterior e ter menos dúvidas sobre a que vem.
Tenho a sorte, de ter percebido que estou inteiro, de peito aberto, desejoso, com fome do que está para vir. Não vou saltar de olho vendados! Entendi que tudo o que me espera, a intensidade, a suavidade, o mel, o polén, o algodão, quando acontecem, o devemos querer até ao limite da elasticidade que o tempo pode suportar, sem quebrar.
Tenho a idade que me permite "saber", que desperdicei muita vida em pouco tempo, o que não é nada de especial, mas conta para alguma coisa. Permite-me ainda saber que quando nos acontecem coisas bonitas, únicas, arrebatadoras o que pensamos estar a perder, ou ter perdido, encontramos como que por golpe mágico e cristalizamos muito do que está para vir.
Vou congelar o meu tempo, embora contrariado, para acertarmos os nossos relógios, relativizando o "click neural" iniciador. Como não consigo hibernar, nem quero, a vida está a ser vivida em "jet lag".
10.11.10
6.11.10
31.12.09
Fui ao Porto
Cheguei...toquei - já desço...a Francisca.
Linda! Não lhe sentia a dimensão do corpo há muito tempo.
Dentro, inundei.
Abracei forte... - cuidado pai!
Linda! Não lhe sentia a dimensão do corpo há muito tempo.
Dentro, inundei.
Abracei forte... - cuidado pai!
10.11.09
6.11.09
" Deambulações Oblíquas "
" Se escrevo é porque nunca vejo mesmo quando vejo
e porque o que sinto mesmo quando me deslumbro é sempre indefinido
mas não escrevo para chegar a uma conclusão
nem para determinar o que é inexprimível "
António Ramos Rosa - Deambulações Obliquas
e porque o que sinto mesmo quando me deslumbro é sempre indefinido
mas não escrevo para chegar a uma conclusão
nem para determinar o que é inexprimível "
António Ramos Rosa - Deambulações Obliquas
29.9.09
17.7.09
6.7.09
.
Onde o dia nasce muito cedo
abraçámos o mesmo oceano
na parte do canal orlado de areia quente
e coqueiros paraíso que nos deixava estar
Sentimos o odor forte depois das chuvas
terra e capim aquecidos pelo sol
Não encontrei ainda o incenso certo
Quando chove procuro-o louco de nariz no ar
encontraste?
Tento enganar a memória
fecho os olhos não consigo lá chegar
Nunca mais ouvi a palavra macua
tamboradas funebres soarem das árvores
marrabenta ritmar os corpos suados
chiii minino
Nunca mais senti feijão-macaco
estetado na pele
pêlo de saguim no meu colo
e os amendoins de reserva nas bochechas
a cacimba da manhã
Nunca mais vi terra tão compacta
erguida por por formigas
pessoas da ilha a deixar em repouso
cinzas e flores sobre o mar
feira de domingo em frente de uma catedral
Nunca mais comi farinha de mandioca cozinhada
com peixe seco a que me fazia convidado
coco fresco ralado por um ferro rendilhado
na ponta de um banco
depois de lhe beber a água fresca
A norte deixei a parte da vida
que dizem e sei ser a essência
de quando a inocência nos vai sendo roubada
Mas tinha que estar tão longe
e não conseguir voltar?
Fecho os olhos as memórias fecham
cansado de ausências
Nunca mais fui livre em paisagem infinita
Em que parte abraçaste o Índico?
.
Onde o dia nasce muito cedo
abraçámos o mesmo oceano
na parte do canal orlado de areia quente
e coqueiros paraíso que nos deixava estar
Sentimos o odor forte depois das chuvas
terra e capim aquecidos pelo sol
Não encontrei ainda o incenso certo
Quando chove procuro-o louco de nariz no ar
encontraste?
Tento enganar a memória
fecho os olhos não consigo lá chegar
Nunca mais ouvi a palavra macua
tamboradas funebres soarem das árvores
marrabenta ritmar os corpos suados
chiii minino
Nunca mais senti feijão-macaco
estetado na pele
pêlo de saguim no meu colo
e os amendoins de reserva nas bochechas
a cacimba da manhã
Nunca mais vi terra tão compacta
erguida por por formigas
pessoas da ilha a deixar em repouso
cinzas e flores sobre o mar
feira de domingo em frente de uma catedral
Nunca mais comi farinha de mandioca cozinhada
com peixe seco a que me fazia convidado
coco fresco ralado por um ferro rendilhado
na ponta de um banco
depois de lhe beber a água fresca
A norte deixei a parte da vida
que dizem e sei ser a essência
de quando a inocência nos vai sendo roubada
Mas tinha que estar tão longe
e não conseguir voltar?
Fecho os olhos as memórias fecham
cansado de ausências
Nunca mais fui livre em paisagem infinita
Em que parte abraçaste o Índico?
.
17.6.09
A solidão - a que fere os ossos e carnes restantes, ausente de palavras ditas, verdadeiramente afectada pela ausência da pele - não é escolha!!! É o que deixamos que seja, é o que deixam que aconteça, é o que esperam perante a invisibilidade da vida. O resto, são inconfidências maltratadas no confessionário das boas vontades flutuantes, agradável horizontalidade.
21.5.09
deus-não-deus
.
Vejo, a ritualização da imagem santa rumo aos braços do cristo-rei, pétreo filho, em missa junto à borda terrena do rio, mãos juntas e olhos na miséria pululante oportunamente servidora de inchados dogmáticos. Desconfio, que deus utilizado não está ali, zangado com uns e outros, por terem abandonado o exemplo da sua mão biológica. Se ali estivesse, jesus, filho de deus e da imaculada, virava os ministérios da praça a que chamam comércio, acompanhado pelos que não estão onde vejo chorar lágrimas secantes, quando o conforto do ordenado chega a meio do mês seguinte, depois dos cremes e gravatas. Esquecem que a maior parte sobrevive como eles agora sentem a vida.
Falta-lhes, talvez, a vivência de um não-deus, o outro, próximo da pele, junto aos olhos, ouvir o bater da essência da vida, reconhecer que uma sincronia pode ser ritmo e arritmo eternamente válidos. Assim, quando somos abalados pelo que aos outros não reconhecíamos, o peso da avassaladora onda, possa ser atenuado pelo que sabemos e pelo outro, não-deus.
Falta-nos acreditar, que podemos ser insuflados por lábios carnudos como na boca de um trompete em permanente jam session
.
13.5.09
nó
.
a garganta sente
o alcatrão novo
respiro-lhe os vapores recentes
o caminho sinalizado
confunde-me
ausentes os sinais ser estar
fico suspenso
por um nó
górdio sabe
.
a garganta sente
o alcatrão novo
respiro-lhe os vapores recentes
o caminho sinalizado
confunde-me
ausentes os sinais ser estar
fico suspenso
por um nó
górdio sabe
.
11.5.09
Sábado, fui à feira olhar, tocar, cheirar livros e envolver-me com o " Meninos de Ninguém"
Já estava marcado, a Ana ia apresentar o menino dela, "Meninos de Ninguém". Troquei o horário do que viria a ser o "happening", tinha gravado 16 e na verdade era 18. Havia tempo para ver a chuva a regar as fibras que já foram árvores, belo sacrifício, que os "livreiros" teimavam em proteger, "- São baratos, mas temos que cuidar deles...". Pensei que talvez alguns, precisem de água para crescer...Faltavam 20 minutos para as 18, dirijo-me ao stand da Ulisseia e perguntei onde era a apresentação, " Na praça central, mais acima...". Já sabia onde era,( dadas as circunstâncias pensei que...), estrado coberto de vermelho, tenda em rede branca protectora (?), para a autora e convidados oradores e cadeiras debaixo de uma árvore para os assistentes. Espantado e convencido, sigo ao encontro da Ana e do resultado fixado em livro, da pessoa que é, do seu trabalho e talento.
Aceno para marcar presença. Ela gentil sorriu, interrompe e chama-me. Cumprimentos apresentados, vi a Sandra, irmã, que não via há muito tempo. Conversa em dia, saudades mortas e continua bonita ( o Telmo é um homem com sorte ), e vejo algumas pessoas conhecidas, não de aperto de mão, mas de referência enquanto profissionais.
" Happening "
Chovia, adia-se? A tenda afinal só protegia do sol. Nada disso, ainda bem!
Guião rasgado, improviso a nascer e foi bonito de se ver, todos a contribuírem para que a chuva fizesse parte da assistência. Quem estava queria, quem não chegou não queria! Este é um momento único para um criador, sentir que a cortesia não faz parte.
As intervenções foram brilhantes, iluminaram a Ana, que a cada elogio pestanejava (se fosse eu babava-me ), anotava e quando tomou a palavra agradeceu os elogios, explanou o seu posicionamento e motivação profissional. A Julieta Monginho, para além de outros elogios, convido-a a participar em " inquérito" no "seu" tribunal. O Adelino Gomes coloco-a como sua igual, para além de servir de "pé de microfone" como disse, para que a Ana falasse. Toda esta situação, com momentos muito interessantes e participados, só foi possível porque a organização da feira não "pensou" na habitual chuva que aparece por esta altura.
Do Livro, primeiro vou sorver as palavras, depois tentar dizer alguma coisa...vamos a ver se sou capaz!
8.5.09
Ao meu irmão
Longe pouso o olhar
a paisagem não é minha
terra viva
nos meus pés
nus
Aconchego-me
a parte do meu sangue
posso dormir
habitar os ermos
que me estavam vedados
5.5.09
Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora!
Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora, e que Senhora!
Cheirava a corpo, nada tirou da idade que tem, rugas todas bem definidas e era bonita. Nada lhe sei da vida, mas deve ter sido dura pela mãos desenhadas pelo tempo. É difícil encontrar senhoras assim, Hedonismo e Narciso andam muito ocupados a tratar das deusas que por ai habitam nos nossos olhos imaginários.
Eu, que não sou nenhum deus nem deusa, deu-me para perder a barriga, rapar o cabelo para apagar a careca e as brancas e tentar que umas deusas que conheço ( não posso ser injusto, elas não são as deusas hedonarcisas ), me dispensem uns segundos do seu olhar.
2.5.09
Mãe da minha filha
Não me lembro de te dizer que quando o resultado dos nossos corpos não chegava, ficava mal por ti. Não te mostrei a alegria e o medo transbordantes, quando me mostras-te o teste azul e branco, que deve estar no porta jóias com motivos marinhos.
Lembro-me de uma foto, que deve estar na terceira ou quarta gaveta do móvel de entrada, em tua casa, feita por nós no bar da Fundación Pilar y Joan Míro. Em fundo um painel em azulejos grandes, iconograficamente mirosiano, muito bonito. Estas sentada a uma mesa, top preto, calças verde-azeitona e nos pés uns chinelos. O teu olhar pousa enternecido na Francisca, que rodopia no meio do bar feliz de liberdade. Estão lindas!
Nunca te disse, teres-me feito pai não pode ser rasurado de mim, por mais volta e revolta que as nossas vidas sofram !
Obrigado, mãe da minha filha,
tem uma vida feliz!
Obrigado!
Dou-te flores Mãe
O líquido que bebi dentro de ti
soube-me a pouco
Bebi outros à procura do teu
e da camada de tempo
que respirámos juntos
] esta gravado
em nota escondida dos olhos [
Dou-te flores
todas as que conheço
e as que nunca vi
28.4.09
Preciso
.
Um dia pode ser hoje estou frio
sol quente inunda lisboa
na esplanada buondi da estação rossio
preciso que o vento circular
me traga o reflexo dos meus olhos
do olhar que procuro encontrar
Um dia preciso de café quente
a queimar-me a língua na tua boca
puxar a minha com as mãos que só tu tens
deslizantes pelo tempo que estou a ver
Um dia preciso preciso sussurar
que os olhos o sol o café a estação e lisboa
és tu ausente pelo medo da resposta
de te dizer preciso
25.4.09
25 de Abril
.
Estava a escrever um texto, mas o que vem a seguir, tira-me o folgo.
" Ás vezes o construtor detém-se. A obra afigura-se-lhe um montão de ruínas e, exausto, nem sequer consegue levantar uma pedra. Recorda então o fulgor fresco de uma manhã inicial, a ligeireza dos movimentos ascensionais, a ingenuidade de uma visão aberta e consonante, as perspectivas puras que se projectavam sobre um mar fascinante na sua lenta e azul tranquilidade. Algo de subtil e precioso germinará ainda sob a massa confusa das sensações em que o ser se asfixia e imobiliza? A vivacidade de uma festa no deserto poderá ainda actualizar a festa de outrora, a festa do princípio de todos os princípios? O construtor é neste momento o ignorante supremo na sua nuvem obscura, trabalhado pelas ondas negativas da desolação. Mas este momento, por negativo que seja, é já o despertar para a necessidade de construir a partir da resistência dos materiais opacos da construção e do seu peso maciço em que está petrificada a energia do ser. "
de António Ramos Rosa " O Aprendiz Secreto "
" Ás vezes o construtor detém-se. A obra afigura-se-lhe um montão de ruínas e, exausto, nem sequer consegue levantar uma pedra. Recorda então o fulgor fresco de uma manhã inicial, a ligeireza dos movimentos ascensionais, a ingenuidade de uma visão aberta e consonante, as perspectivas puras que se projectavam sobre um mar fascinante na sua lenta e azul tranquilidade. Algo de subtil e precioso germinará ainda sob a massa confusa das sensações em que o ser se asfixia e imobiliza? A vivacidade de uma festa no deserto poderá ainda actualizar a festa de outrora, a festa do princípio de todos os princípios? O construtor é neste momento o ignorante supremo na sua nuvem obscura, trabalhado pelas ondas negativas da desolação. Mas este momento, por negativo que seja, é já o despertar para a necessidade de construir a partir da resistência dos materiais opacos da construção e do seu peso maciço em que está petrificada a energia do ser. "
de António Ramos Rosa " O Aprendiz Secreto "
24.4.09
23.4.09
KITSCH AGRÍCOLA
A caminho, parei para ver uma pequena laranjeira, carregada de frutos, com uma cova perfeita para a rega, muito bem atada a uma estaca que serve de guia para medrar direitinha, tudo muito bem feito. Sim senhora, bom trabalho! Vou fotografar para poder mostrar como é que as coisas se fazem à séria. Puxo da máquina, enquadro, faço zoom...não queria acreditar! Desvio a máquina, aproximo-me...e a coisa é de plástico. Até na agricultura... Fotografo, mas por uma razão diferente da inicial. Enquanto caminhava para a queijadinha, a imagem já não me saía da cabeça, bem como as razões que podem levar uma pessoa a trabalhar tanto para tentar enganar-se a si e aos outros. O agricultor Kitsch não come os frutos, os outros não os podem roubar, e assim não está certo! Pensei logo no aproveitamento artístico da coisa; um pomar com a multiplicação do objecto e cova incluída...a instalação estava feita e a justificação conceptual e chocante do caminho da arte e agricultura de mãos dadas, land art...e as leituras políticas e sociais, etc...Logo a seguir a ideia esfumou-se !!! Eu não sou capaz de fazer isto e não posso pedir ao agricultor Kitsch, porque ele " plantou uma " para não ter trabalho. Tenho pena!! A escala de um pomar com um hectare destas coisas ficava brutal!!!
22.4.09
Palestina 2003
Ficaram-me gravadas para sempre, as imagens de um pai em desespero, sentado na sombra contra uma parede segurando no peito o filho acabado de abater por um soldado israelita. Aquela bala também me atingiu a mim. Não morri, mudei.
Sinto-me a mortalha
de todas as crianças
enterradas sujas pelas armas
Mereço o peso absurdo da cova
21.4.09
20.4.09
Dores
Palavras simples
são dores que senti
no outro lado da pele
Não as li na tua boca
Precisava de acordar
com uma duas nos meus lábios
Morreram-me
Não as senti onde tinha sede
Sopro
Labiaste-me o mar
iodado do norte
Suplicaste-me palavras de amor
no meio da ponte e estava escuro
Tenho a maresia na boca
fresca sem ponto cardeal
pronta a estalar
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