"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas

21.3.11

a poesia é de todos os dias

.


NASADIYA, HINO DA CRIAÇÃO


  1.  Outrora não havia existência nem não-existência; não havia a dimensão do espaço nem o céu que esta para além. O que despertou? Onde? Em protecção de quem? Haveria água, profundamente sem fundo?
  2.  Não havia morte nem imortalidade. Não havia traço distintivo da noite ou do dia. Aquele respirou, sem ar, por seu próprio impulso. Para além disso não havia nada além.
  3.  A escuridão era escondida pela escuridão no início; sem qualquer traço distintivo, tudo isto era água. A força vital que foi coberta pelo vazio, essa, ergueu-se pelo poder do calor.
  4.  O Desejo desceu sobre aquela no início; foi a primeira semente da mente. Poetas procurando no seu coração com sabedoria encontraram a reclusão da existência na não-existência.
  5.  O seu fio foi espalhado em em volta. Haveria abaixo? Haveria acima? Havia semeadores; havia forças. Havia o impulso por baixo; havia o dar acima.
  6.  Quem o sabe realmente? Quem o vai aqui proclamar? De onde foi produzido? De onde vem a criação? Os deuses vieram depois, com a criação do universo. Quem sabe então de onde se ergueu?
  7.  De onde se ergueu esta criação - talvez se tenha formado a si mesma, ou talvez não - aquele que o olha para baixo, no mais alto do céu, só ele o sabe - ou talvez não.




ÍNDIA - 
RIG VEDA ( c. 1200 a.C. ) - Texto do Hinduísmo
Trad. MANUEL JOÃO MAGALHÃES
ROSA DO MUNDO  -  2001 POEMAS PARA O FUTURO


.

20.3.11

há vidas que assustam

.


há vidas que assustam
sonhar, mas questionar no sonho
duvidar, ter medo e caminhar
em tempo quase sem existência
ter terra nos pés e nas mãos
cores que cheiram, tocam, sentem
palavras que podem azedar
no fogo que a vida põem no sangue
doar sem rezar
respirar de peito aberto às aves
que  alimentam em águas agitadas
e aconchegam de asas abertas
quando descobrem conchas
e algas prateadas nas nascentes de luz

não ser nada que não se seja
ser quando se encontra
quando precisam de encontrar para ser, estar
e vestir-me quando imaginam procurar


.

14.3.11

O SÁBIO

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o gato esta a comer as rosas:
ele é assim.
Não o impeçam, não impeçam
o mundo de girar,
as coisas são assim.
O três de Maio
foi nublado; o quatro de Maio
quem sabe. Varram
a carne das rosas, atirem os restos
à chuva.
Nunca come
todas as migalhas, diz
que os corações são amargos.
Ele é assim, conhece
o mundo e o tempo.




DENISE LEVERTON  -  E.U.A
Trad. JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO


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10.3.11

ROSA[S] DO MUNDO

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SOLIDÃO


O rapazinho do campo receia ficar só,
Guarda, junto ao travesseiro, um grilo que lhe conforta o sono.
Ao envelhecer, exausto pelo árduo trabalho citadino,
Compra um relógio de ponteiros luminosos que o acompanha na
              noite.


Quando jovem, sentia enorme inveja
do grilo que habitava a erva viçosa no cemitério.
Agora, bafejado pela morte há três horas, jaz inerte;
O seu relógio não pára de contar o tempo.




PIEN CHIH LIN - China
Trad. ARMANDA RODRIGUES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO


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4.3.11

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morreu-me um companheiro, soube-o ontem. companheiro de luta, a luta para que a vida não se esvai-a por entre os dedos, embora feridos. mas partir, não se sabe em que dia, sem mão que nos sossegue, dói, dói saber.
se acreditasse numa outra vida, que não a que deixamos, desejava-lhe a melhor, sem me despedir.

.

1.3.11

[ a __ r ]

.

em sítio algum
papel porta parede
encontrei a palavra
[               ]
correctamente
nomeada


a palavra
devia nascer
sílaba a sílaba
retirada do silêncio
consonântica impoluta
de significações indevidas
ressumbrar nas nossas línguas
[ tapadas ]
  secretas
.

23.2.11

volta Piero, Manzoni nisto

.

a posta bosta à mesa
desce paredes estomacais
e nem finas bocas
se recusam ao manjar
são cifrões reluzentes
que sorrisos tapa olhos
envolvem em dias de feiras
todos os actos são fogueiras e vaidades
e a posta espalha-se
vaporosa cheirosa
filigrana cuidada
por novas mesas adornadas a ouro
a prata sobre azul é tão bonita
e fica muito bem em bosta
e é arte damas e cavalheiros
mostrada para cachorros frios
arte cobiçada arte amada
arte muito dinheiro mercado camas nomes
é arte
é a arte narrativa da feira fogueira
da narrativa da arte necessariamente verificável
é a arte rica novidade novidade
velha a cair de nova


volta Piero, Manzoni nisto

.

21.2.11

noturno

.

e nessa noite
os meus anjos
voaram para ti

nada lhes disse
sabiam que guardando-te
cuidavam de mim


aos anjos não pedi que voltassem
.

9.2.11

Miguel Esteves Cardoso

"... Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
..."


publicado com o título " diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu " em atrama.blogspot.com

6.2.11

pensar é complexo, problemático, incerto, obscuro...

.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Alberto Caeiro - InConjuntos

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4.2.11

recipiente para sentir

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vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro

vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido

e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.

3.2.11

.

sonegar o olhar
com rosmaninho
construtor de favos e mel
não engana as abelhas

o pólen solta-se
pelos gestualizados poros
no sonho transparente
dos olhos no vidro da mesa
guardados pela tampa
roscada escarlate
não mexer senão salta

.

27.1.11

a pele que as máscaras deixam ver

.


estigma(tismo) ao espelho - estudo de óculos para ajuste da percepção da vida
técnica mista sobre tela
79x55 cm
 
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)


estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)


estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas. 
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)


verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia


Metalinguagem - Dicionários online Priberam e Infopédia.
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4.1.11

.
Sei como é bom adormecer alguém! Deixar que a nossa voz presente, embale suavemente os ouvidos que nos devolvem um respirar mais profundo e repousante, as mãos ausentes passeantes pelo cabelo que sabemos sempre esticado e perfeito, pousado numa das nove ou sete almofadas estendidas pela cama.
Ao reler "Pedro, Lembrando Inês" do Miguel Júdice, encontrei o poema "Acordar" e as palavras que me lembraram a voz que adormecia.

"Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada de fora
de nós, é tudo o que temos na vida. "
.

1.1.11

a pele que as máscaras deixam ver

.






























A sensação/realidade presente durante a construção dos trabalhos a apresentar, foi de
permanente diagonal, a queda. Sabia que a qualquer momento podia estatelar-me no chão, as oblíquas da horizontalidade obrigavam-me a cheirar o chão que pisava, tornando quase impossível a verticalidade.
.

28.12.10

A pele que as máscaras deixam ver




Texto quase integral, encontrado com máscaras simples em 2009

" Máscara Higiénica
Esta máscara não é um EPI ( Equipamento de Protecção Individual )
Certifique-se sempre que as máscaras são as adequadas e estão devidamente ajustadas. Como qualquer máscara, o uso incorrecto ou o não seguimento das instruções, pode levar a doenças graves ou incapacidadedevido, à exposição em atmosferas perigosas...
Aviso:... Apenas e só, devem ser usadas para reduzir o desconforto provocado pela exposição a partículas não tóxicas e para ajudar a proteger o produto da respiração do utilizador. "



18.12.10

.

por traz dos olhos
fundo onde permanece
a reserva de favos
que o fogo impetuoso
ainda não destruiu
resiste a cera que suporta
o mel cristalino e puro
que vou tragando

que dissonância
sobreponho ao indecifrável
timbre que me arde e rebenta
de não ouvir tocar em movimento
que cedo afirmei

que dissonância impiedosa
me troca o tempo que atiro
como se ontem fosse dúvida
que não devia existir

e que dissonância soa
quando o pólen incandescente
que é a norma iniciática
está em face de moldagem
e arrefecimento consistente
que a raridade me faz perceber
que a excepção confunde a regra

tenho que engolir as palavras
que o mel me dá
e beija-las quando os lábios
se encontrarem na rua escolhida
certa pelo fuso e hora
que podem não ser

descongelo o meu tempo
que nada frio dissone a essência
inquestinável

.




4.12.10

Tenho, por estes longos e deliciosos dias, confrontado-me com a vida no seu estado mais puro. Uma vontade imensurável de a amar em toda a sua plenitude; nos problemas, na angústia das permanentes incertezas, no trabalho que estou a desenvolver para um evento expositivo para Janeiro, nas pequenas coisas que vou soltando em forma de escrita e na disponibilidade desejada para sentir os outros e deixar que me sintam a mim.

Ontem, em conversa intensa e interessante, que a determinada altura transbordou do leito normalmente sereno e fluído do meu rio, por questões de semântica e amplitude compreensiva toldada, pressenti que a inundação não prevista, não podia estar relacionada com as nuvens que tinham acabado de passar. Inconsequente, a almofada adormeceu-me.
Ao acordar, lembrei-me do Antoni Tàpies e de um artigo que escreveu em 1970, " Nada é Mesquinho", em que ele faz o esforço de tentar explicar por palavras, o que a todo o instante lhe é solicitado sobre a sua obra - " Além disso, pensamos também: não é o meu trabalho, para isso existem os críticos e os comentadores de arte que o podem fazer. Mas os remorsos que nos provoca a constância de tanta gente de boa fé não param de espicaçar-nos. ... Geralmente, quem pergunta quer saber qualquer coisa de uma obra determinada, ou até apenas de um sinal ou de um fragmento concreto. E hoje,..., o sentido de uma obra não se encontra sequer na própria obra, pois a obra está relacionada com muitas outras, próprias ou alheias. Explicar uma obra de arte já é quase fazer toda a história da arte do nosso tempo." Recorrendo a parábolas e metáfora, remetendo para situações comparativas com outras artes e posturas de contemplação e práticas da arte em outras civilizações, continua o esforço. "...Olhemos finalmente para uma determinada obra minha, posto que o leitor deve querer saber de uma vez por todas como é que me vou desenvencilhar de tudo isto. E vamos pegar numa difícil, para ser mais engraçado. Numa que foi discutida e a propósito da qual alguém me disse, apesar de ser meu amigo, ser-lhe impossível ver nela fosse o que fosse. Trata-se de uma obra feita com fibra vegetal, uma espécie de filamentos de palha muito frisadas que se costumam utilizar para atapetar ou encher colchões. Intitula-se "Palha e Madeira".
A obra é uma tela branca, com palha entrelaçada colada e dividida em duas partes por uma ripa de madeira. Meticulosamente vai descrevendo a simbologia utilitária e cultural da palha, material pobre e de utilização desqualificada,"...E tudo isto não é por sentimentalismo nem por qualquer gosto "artístico" pela miséria, mas sim para fazer compreender a " naturalidade primeira" da dialética e da luta de todas as coisas,...", bem como a importância do dois resultante da divisão,"...Os entendidos em simbolismos aplicados à arte - embora, prudentemente, quase nunca extraiam de tudo isto consequências práticas - dir-nos-iam, claro, muito sobre mais coisa do que eu sobre este dois: a oposição, o conflito, a reflexão, o equilíbrio ( ou o desequilíbrio em potência), o criador e a coisa criada, o preto e o branco, o masculino e o feminino, o yin e o yang, a vida e a morte, o bem e o mal, o alto e o baixo."

Quando me perguntam pela vida, tenho maiores dificuldade em a mostrar que o Tàpies tem em relação à sua Obra; não tenho o génio nem a mestria ou erudição e vida vivida que o Mestre tem, por isso vou cita-lo, "...Para o pintor existe apenas um monte de palha, e um dois. E ainda um dois que é um. E todos têm o direito a dizer-lhe, se quiserem, que é um farsante, que tudo isso é falso, que é um engano. Porque ele julga o mesmo. Um quadro não é nada. É uma porta que conduz a outra porta. A arte, por mais excelente que seja, será sempre mais uma manifestação da "maya", do engano que tudo é. E nunca encontraremos a verdade que procuramos num quadro, pois esta aparecerá depois da última porta que o contemplador souber franquear com o seu próprio esforço. E quanto mais importante for o quadro, e mais importantes as personagens nele pintadas, e mais cores e mais camadas de tinta nele houver, mais espesso será o véu que nos ofusca a verdade e menos encontraremos o caminho."
Embora tenha iniciado o texto de forma optimista, de vez em quando também me apetece fazer como o Mestre, embora a componente do sonho esteja suspensa, "...E então, penso que mais vale virar costas a tudo e sentarmo-nos numa cadeira, como um dia me disse a minha companheira que fiz num sonho; uma cadeira a flutuar no meio da brancura do espaço infinito; e, de repente, olhar para a terra e sentir aquela emoção tão intensa e sublime que a fez chorar vivamente ao ver espalhadas umas migalhas de coisas, nada, uns resíduos ligeiros, uns fios de palha..."

O frémito impulsionador que me impele para a incontornável afirmação de algumas coisas na vida, que não sei separar da arte, não é ofuscado por caldeirões de ouro que me vão seduzindo para descansar. Gosto da palha para repousar o espírito, mesmo que me incomode o corpo.
O galgar das margens afinal aconteceu, pela preocupação afectuosa de perceberem se o pão que tenho que conquistar, ainda estava em farinha ou no forno a cozinhar.


As citações foram retiradas do livro
" Antoni Tàpies - a prática da arte "
Edições Cotovia

1.12.10

Trago sempre comigo um livro, se poder chamar livro a um objecto que quando o abro à procura do que me está à acontecer, do que ainda pode vir, do que não sei dizer ou não encontro forma de esclarecer me responde sem página marcada nem linha sublinhada. Deixa-me, sem nada pedir, levar-lhe palavras significativas e fica inteiro. Quando volto, encontro-o sempre refeito e sinto-lhe o prazer da conversa. Os livros são assim quando os tornamos nossos, vivem ao nosso lado, respira-nos os olhos e alimentam-nos sempre.

" A intensidade de uma dor suscita não a paciência nem a aceitação mas a negação e o ressentimento. Perante a agressão anónima do corpo o espírito perde a tranquilidade e é incapaz de se sobrepor à violência que o nega e o confunde. A esta negação natural o espírito opõe a violência de uma negação gratuita e inoperante. O ser não pode construir nenhum abrigo, uma vez que a dor é a ruptura insuperável de qualquer construção e a imposição e exposição do insuportável para a qual não existe nenhum subterfúgio nem estratégia de abafamento ou de redução. Para esses momentos o construtor não tem nenhum plano, apenas a sala vazia que não sabe como preencher e que provavelmente ficará vazia.

O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa "

24.11.10

.

preciso de encontrar-me
com o mar
na longa linha horizontal
de fusão
e nos meus pés
quando se dá
ao chão que o agarra

preciso de uma mão
que me leve
para conversarmos todos

.



19.11.10

.

atravessa-me um silvo
inquietação pura latejante
não sei se pela impossibilidade
da pele ou pele que não é minha
nem as trombetas celestiais
que os anjos sopram
em andamento divino
têm força pacificadora

só a ceia que me espera
permite que durma sobressaltado
e descanse no mel que tenho
agarrado à boca
que nenhuma escova
pode disfarçar

.


17.11.10

A primeira postagem, "click neural", iniciador do blog ( etiquetas a primeira ) começa com "O tempo não espera pela vida" e acaba com " que coisa, a vida é tempo". A assência do conceito permanece, embora se possa questionar a significação de tempo.
Entendo que cada um tem o seu tempo, tem a sua vida única, preciosa e que não lhes podemos pedir para saltem de uma vida para outra, sem tempo para enfrentarem os medos da mudança e mais importante, limparem a vida anterior e ter menos dúvidas sobre a que vem.
Tenho a sorte, de ter percebido que estou inteiro, de peito aberto, desejoso, com fome do que está para vir. Não vou saltar de olho vendados! Entendi que tudo o que me espera, a intensidade, a suavidade, o mel, o polén, o algodão, quando acontecem, o devemos querer até ao limite da elasticidade que o tempo pode suportar, sem quebrar.
Tenho a idade que me permite "saber", que desperdicei muita vida em pouco tempo, o que não é nada de especial, mas conta para alguma coisa. Permite-me ainda saber que quando nos acontecem coisas bonitas, únicas, arrebatadoras o que pensamos estar a perder, ou ter perdido, encontramos como que por golpe mágico e cristalizamos muito do que está para vir.
Vou congelar o meu tempo, embora contrariado, para acertarmos os nossos relógios, relativizando o "click neural" iniciador. Como não consigo hibernar, nem quero, a vida está a ser vivida em "jet lag".

10.11.10

.

vou ficando
e o mel que sorvo
estala na boca
lentamente
em cada papila

já não é só mel
o gosto arde
e não se vê
.

6.11.10

.

as ruínas desenhadas
no espelho
são escombros agarrados
a um tempo
que o sábio correr dos dias
está a limpar

e o resto
preguntei ao espelho

vai encontrado

.

31.12.09

Fui ao Porto

Cheguei...toquei - já desço...a Francisca.
Linda! Não lhe sentia a dimensão do corpo há muito tempo.

Dentro, inundei.
Abracei forte... - cuidado pai!



10.11.09

.


e as folhas caem
folhas leves
outonais
pesam chumbo no peito
costas da terra
e está escuro
escuro fechado
como olhos mortos
apontados aos ramos
das folhas
.

6.11.09

" Deambulações Oblíquas "

" Se escrevo é porque nunca vejo mesmo quando vejo
e porque o que sinto mesmo quando me deslumbro é sempre indefinido

mas não escrevo para chegar a uma conclusão
nem para determinar o que é inexprimível "

António Ramos Rosa - Deambulações Obliquas

29.9.09

.

o sangue seca
feito carne
na boca que me despeja
seca morta
pendurada por um gancho

podiamos ser fruto aromado
vermelho toranja
palavras suadas no teu ouvido
labiadas no meu
andamento corporal espiralado

precisavamos de crescer
.

17.7.09

.

Pressinto o fio da navalha
em movimentos pendulares descendentes
a retalhar a exangue
bomba sentimental
Nada se prende em infame ausência
o sangue iniciador da carne
o espelho originário da forma
nem a palavra pai

À inevitável queda do sol
juntam-se as sombras
memórias inacabadas em tempo doentio
.

6.7.09

.

Onde o dia nasce muito cedo
abraçámos o mesmo oceano
na parte do canal orlado de areia quente
e coqueiros paraíso que nos deixava estar

Sentimos o odor forte depois das chuvas
terra e capim aquecidos pelo sol
Não encontrei ainda o incenso certo
Quando chove procuro-o louco de nariz no ar
encontraste?
Tento enganar a memória
fecho os olhos não consigo lá chegar

Nunca mais ouvi a palavra macua
tamboradas funebres soarem das árvores
marrabenta ritmar os corpos suados
chiii minino

Nunca mais senti feijão-macaco
estetado na pele
pêlo de saguim no meu colo
e os amendoins de reserva nas bochechas
a cacimba da manhã

Nunca mais vi terra tão compacta
erguida por por formigas
pessoas da ilha a deixar em repouso
cinzas e flores sobre o mar
feira de domingo em frente de uma catedral

Nunca mais comi farinha de mandioca cozinhada
com peixe seco a que me fazia convidado
coco fresco ralado por um ferro rendilhado
na ponta de um banco
depois de lhe beber a água fresca

A norte deixei a parte da vida
que dizem e sei ser a essência
de quando a inocência nos vai sendo roubada
Mas tinha que estar tão longe
e não conseguir voltar?

Fecho os olhos as memórias fecham
cansado de ausências
Nunca mais fui livre em paisagem infinita


Em que parte abraçaste o Índico?
.


17.6.09

.

Tu, Eu
um gesto, outro, o mesmo
tocas-me, anseio
sinto-te, desvaneço
toco-te, abres
como a terra que desconheço
e o mar
Respiramos o mesmo ar
por quatro narinas juntas,
lábios selados

continuo a não saber nada
.
A solidão - a que fere os ossos e carnes restantes, ausente de palavras ditas, verdadeiramente afectada pela ausência da pele - não é escolha!!! É o que deixamos que seja, é o que deixam que aconteça, é o que esperam perante a invisibilidade da vida. O resto, são inconfidências maltratadas no confessionário das boas vontades flutuantes, agradável horizontalidade.

21.5.09

deus-não-deus


.

Vejo, a ritualização da imagem santa rumo aos braços do cristo-rei, pétreo filho, em missa junto à borda terrena do rio, mãos juntas e olhos na miséria pululante oportunamente servidora de inchados dogmáticos. Desconfio, que deus utilizado não está ali, zangado com uns e outros, por terem abandonado o exemplo da sua mão biológica. Se ali estivesse, jesus, filho de deus e da imaculada, virava os ministérios da praça a que chamam comércio, acompanhado pelos que não estão onde vejo chorar lágrimas secantes, quando o conforto do ordenado chega a meio do mês seguinte, depois dos cremes e gravatas. Esquecem que a maior parte sobrevive como eles agora sentem a vida.
Falta-lhes, talvez, a vivência de um não-deus, o outro, próximo da pele, junto aos olhos, ouvir o bater da essência da vida, reconhecer que uma sincronia pode ser ritmo e arritmo eternamente válidos. Assim, quando somos abalados pelo que aos outros não reconhecíamos, o peso da avassaladora onda, possa ser atenuado pelo que sabemos e pelo outro, não-deus.
Falta-nos acreditar, que podemos ser insuflados por lábios carnudos como na boca de um trompete em permanente jam session
.

13.5.09

.

a garganta sente
o alcatrão novo
respiro-lhe os vapores recentes
o caminho sinalizado
confunde-me
ausentes os sinais ser estar

fico suspenso
por um nó
górdio sabe

.

11.5.09

Sábado, fui à feira olhar, tocar, cheirar livros e envolver-me com o " Meninos de Ninguém"


Já estava marcado, a Ana ia apresentar o menino dela, "Meninos de Ninguém". Troquei o horário do que viria a ser o "happening", tinha gravado 16 e na verdade era 18. Havia tempo para ver a chuva a regar as fibras que já foram árvores, belo sacrifício, que os "livreiros" teimavam em proteger, "- São baratos, mas temos que cuidar deles...". Pensei que talvez alguns, precisem de água para crescer...Faltavam 20 minutos para as 18, dirijo-me ao stand da Ulisseia e perguntei onde era a apresentação, " Na praça central, mais acima...". Já sabia onde era,( dadas as circunstâncias pensei que...), estrado coberto de vermelho, tenda em rede branca protectora (?), para a autora e convidados oradores e cadeiras debaixo de uma árvore para os assistentes. Espantado e convencido, sigo ao encontro da Ana e do resultado fixado em livro, da pessoa que é, do seu trabalho e talento.
Aceno para marcar presença. Ela gentil sorriu, interrompe e chama-me. Cumprimentos apresentados, vi a Sandra, irmã, que não via há muito tempo. Conversa em dia, saudades mortas e continua bonita ( o Telmo é um homem com sorte ), e vejo algumas pessoas conhecidas, não de aperto de mão, mas de referência enquanto profissionais.

" Happening "

Chovia, adia-se? A tenda afinal só protegia do sol. Nada disso, ainda bem!
Guião rasgado, improviso a nascer e foi bonito de se ver, todos a contribuírem para que a chuva fizesse parte da assistência. Quem estava queria, quem não chegou não queria! Este é um momento único para um criador, sentir que a cortesia não faz parte.
As intervenções foram brilhantes, iluminaram a Ana, que a cada elogio pestanejava (se fosse eu babava-me ), anotava e quando tomou a palavra agradeceu os elogios, explanou o seu posicionamento e motivação profissional. A Julieta Monginho, para além de outros elogios, convido-a a participar em " inquérito" no "seu" tribunal. O Adelino Gomes coloco-a como sua igual, para além de servir de "pé de microfone" como disse, para que a Ana falasse. Toda esta situação, com momentos muito interessantes e participados, só foi possível porque a organização da feira não "pensou" na habitual chuva que aparece por esta altura.
Do Livro, primeiro vou sorver as palavras, depois tentar dizer alguma coisa...vamos a ver se sou capaz!



8.5.09

Ao meu irmão



Longe pouso o olhar
a paisagem não é minha
terra viva
nos meus pés
nus

Aconchego-me
a parte do meu sangue
posso dormir
habitar os ermos
que me estavam vedados

5.5.09

Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora!


Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora, e que Senhora!
Cheirava a corpo, nada tirou da idade que tem, rugas todas bem definidas e era bonita. Nada lhe sei da vida, mas deve ter sido dura pela mãos desenhadas pelo tempo. É difícil encontrar senhoras assim, Hedonismo e Narciso andam muito ocupados a tratar das deusas que por ai habitam nos nossos olhos imaginários.
Eu, que não sou nenhum deus nem deusa, deu-me para perder a barriga, rapar o cabelo para apagar a careca e as brancas e tentar que umas deusas que conheço ( não posso ser injusto, elas não são as deusas hedonarcisas ), me dispensem uns segundos do seu olhar.

2.5.09

Mãe da minha filha

Não me lembro de te dizer que quando o resultado dos nossos corpos não chegava, ficava mal por ti. Não te mostrei a alegria e o medo transbordantes, quando me mostras-te o teste azul e branco, que deve estar no porta jóias com motivos marinhos.
Lembro-me de uma foto, que deve estar na terceira ou quarta gaveta do móvel de entrada, em tua casa, feita por nós no bar da Fundación Pilar y Joan Míro. Em fundo um painel em azulejos grandes, iconograficamente mirosiano, muito bonito. Estas sentada a uma mesa, top preto, calças verde-azeitona e nos pés uns chinelos. O teu olhar pousa enternecido na Francisca, que rodopia no meio do bar feliz de liberdade. Estão lindas!
Nunca te disse, teres-me feito pai não pode ser rasurado de mim, por mais volta e revolta que as nossas vidas sofram !

Obrigado, mãe da minha filha,
tem uma vida feliz!
Obrigado!

Dou-te flores Mãe



O líquido que bebi dentro de ti
soube-me a pouco
Bebi outros à procura do teu
e da camada de tempo

que respirámos juntos


] esta gravado
em nota escondida dos olhos [



Dou-te flores
todas as que conheço
e as que nunca vi