.
medindo
olhos apoiados em neurónios
o espaço da memória
|varal sitiado, encoberto |
encontro peças inteiras
alumiadas
clareiras abertas
por vontades alheias
pode o tempo
significar agora e depois
se antes escorreu
gretando superfícies duras
entranhando-se em lençóis freáticos
lavados no mar
pode,
se registado
em espaços memoriados
de vontades próprias
alheadas da origem
.
25.6.11
23.6.11
ca|c|os . [re]construção
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
22.6.11
21.6.11
17.6.11
ca|c|os
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
9.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
reescrito a 2017
.
7.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
5.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ ] em construção
.
medo tapado
entre portas abertas
dúvidas suspensas
oscilantes nos pontos arqueados do círculo
da vida pedida
auscultação, abrigava-me em gaze apertada
meditava nas ouvidas
interrompidas dilaceradas
nas profusas
habilidades escapistas
antepostas à vida
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
1.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra em construção
.
abertura | vertical | necessária
soterrado por linhas espelhadas
o quadriculado rampeado puxava-me os olhos
nadei no céu azul seco, piscina ao lado
inchada de restos outonais da frondosa árvore. A
nortada restante inclinava-me para
horas quebradas, dias rasurados
antes a porta e o sorriso olhado. Entrei
o dia não aparece. O mês gravou-se devagar na memória
abertura | vertical | necessária
soterrado por linhas espelhadas
o quadriculado rampeado puxava-me os olhos
nadei no céu azul seco, piscina ao lado
inchada de restos outonais da frondosa árvore. A
nortada restante inclinava-me para
horas quebradas, dias rasurados
antes a porta e o sorriso olhado. Entrei
o dia não aparece. O mês gravou-se devagar na memória
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
26.4.11
poeta escondido
Natal
A festa hoje dá lugar à melancolia.
Já não somos crianças,
não temos insónias a pensar nos brinquedos
nem sofremos a ansiedade da meia-noite.
Crescemos…
O tempo levou-nos a fé,
levou-nos os avós
levou-nos os pais.
Trouxe-nos os filhos
e a melancolia
de termos sido crianças
e ter sido uma festa.
Rui Spranger
Já não somos crianças,
não temos insónias a pensar nos brinquedos
nem sofremos a ansiedade da meia-noite.
Crescemos…
O tempo levou-nos a fé,
levou-nos os avós
levou-nos os pais.
Trouxe-nos os filhos
e a melancolia
de termos sido crianças
e ter sido uma festa.
Rui Spranger
poeta escondido
Há quanto tempo não levanta um homem os braços?
Neste país de brandos costumes a reacção é natural.
Levantam a cabeça porque há Sol
Baixam-na por respeito ao Senhor
Queixam-se nos cafés dos malditos governantes
E gritam golo quando há bola.
Usam um cravo uma vez por ano
E festejam o bendito feriado
Se estiver Sol aproveitam, vão à praia
Se chover, um passeio no shopping
Ou a amiga televisão
Pois é, nem tudo está mal neste país
Pode-se sempre ser feliz
nos dias feriados.
Rui Spranger
Neste país de brandos costumes a reacção é natural.
Levantam a cabeça porque há Sol
Baixam-na por respeito ao Senhor
Queixam-se nos cafés dos malditos governantes
E gritam golo quando há bola.
Usam um cravo uma vez por ano
E festejam o bendito feriado
Se estiver Sol aproveitam, vão à praia
Se chover, um passeio no shopping
Ou a amiga televisão
Pois é, nem tudo está mal neste país
Pode-se sempre ser feliz
nos dias feriados.
Rui Spranger
6.4.11
rétorica :
.
retórica : tão grande o céu
entrando por minha boca
dentro onde desato a
voar
três minutos antes
de a maré
encher
valter hugo mãe
quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
.
retórica : tão grande o céu
entrando por minha boca
dentro onde desato a
voar
três minutos antes
de a maré
encher
valter hugo mãe
quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
.
5.4.11
PRINCÍPIOS
.
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Nuno Júdice
Pedro,
Lembrando Inês
Dom Quixote
.
4.4.11
palavra-beijo
.
uma imagem
[ aberta sorri
fuma numa mão
fumo a mão no desejo ]
um nome
[ e anagrama ]
um beijo
[ e é beijo ]
todo o dia nos lábios
[ atlântico o beijo ]
com jardim
e janela ao mar
não sonhei
acordei
abri os olhos
a fotografia um nome e uma palavra-beijo
.
deixa entar no poema
.
" Uma palavra que está sempre na
boca transforma-se em baba. "
PROVÉRBIO BURUNDI
DEIXA ENTRAR NO POEMA
alguns clichés.
Submetidos à experiência inefável,
sua carga ( eléctrica? )
escoar-se-á.
Não há uma vala comum para as palavras
descaídas,
um dicionário no inferno;
mas deixa-as vir à tona
da claridade,
e nada lhes insufles. Vê:
não suportam a beleza
que as circunda, abismam-se
em seu ridículo.
A NOITE DIVIDIDA
SEBASTIÃO ALBA
ASSÍRIO&ALVIM
.
" Uma palavra que está sempre na
boca transforma-se em baba. "
PROVÉRBIO BURUNDI
DEIXA ENTRAR NO POEMA
alguns clichés.
Submetidos à experiência inefável,
sua carga ( eléctrica? )
escoar-se-á.
Não há uma vala comum para as palavras
descaídas,
um dicionário no inferno;
mas deixa-as vir à tona
da claridade,
e nada lhes insufles. Vê:
não suportam a beleza
que as circunda, abismam-se
em seu ridículo.
A NOITE DIVIDIDA
SEBASTIÃO ALBA
ASSÍRIO&ALVIM
.
1.4.11
fusão
preciso de encontrar o mar
na longa linha de fusão
e nos meus pés
quando se dá à areia que o agarra
precisava que a mão adornada em anel teu
me levasse ao mar que te pertence
preciso do mar e de colares de conchas partilhadas
e cicios a entrelaçar as voltas pousadas no peito
.
28.3.11
O Alvor do Mundo - diálogo poético
.
Eu vi uma vez num poente um palácio lilás
Senti o seu aroma antigo de ervas ressequidas
e pressenti nele um anjo adormecido sobre a sua arpa de água
Dir-se-ia que o mundo não poderia continuar
tão suave era a glória
daquela plácida suspensão
A rosa do repouso a repouso que nunca repousara
descansava num voluptuoso encanto
aberta à luz de prata e de uma lenta púrpura
um pouco obscura
Uma rã coaxava entre as ervas de um lago
sublimando-se com as suas sílabas roufenhas o momento crepuscular
Sentia-me no interior de um barco ou de uma nuvem
que simplificava em pacífico júbilo derramado
os meandros da mente ansiosa
Era um espaço de voluptuosa melancolia
e a pupila respirava ao ritmo do pulmão
porque tudo estava inteiro e completo
e no entanto era o deslumbramento do inacabado
ANTÓNIO RAMOS ROSA
28 de Julho de 1993
.
O inacabado é um clamor deslumbrante
que lento se incendeia no palácio do poente
suas câmaras são arcos rendilhados
suas sombras são flores suas portas silêncios
A glória do imperfeito
é o seu sereno recomeço
firmeza nas mãos trabalhos do olhar
E tão intenso é o seu movimento
de pura ascensão que a música
se suspende nas arpas dos Anjos
e o seu trilho prossegue em meandros
que o crescente saber vai acabando
Saber infiltrado como água
na deriva encontrado e verdadeiro
E se uma rã perturba
o seu calmo labor
é para se incrustar
na pedra de um novo arco
O inacabado cumpre-se no tempo
inteiro se derrama e esboça a eternidade
que a pupila abraça indescritível
MARIA TERESA DIAS FURTADO
30 de Julho de 1993
O ALVOR DO MUNDO
ANTÓNIO RAMOS ROSA e MARIA TERESA DIAS FURTADO
edições quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
.
Eu vi uma vez num poente um palácio lilás
Senti o seu aroma antigo de ervas ressequidas
e pressenti nele um anjo adormecido sobre a sua arpa de água
Dir-se-ia que o mundo não poderia continuar
tão suave era a glória
daquela plácida suspensão
A rosa do repouso a repouso que nunca repousara
descansava num voluptuoso encanto
aberta à luz de prata e de uma lenta púrpura
um pouco obscura
Uma rã coaxava entre as ervas de um lago
sublimando-se com as suas sílabas roufenhas o momento crepuscular
Sentia-me no interior de um barco ou de uma nuvem
que simplificava em pacífico júbilo derramado
os meandros da mente ansiosa
Era um espaço de voluptuosa melancolia
e a pupila respirava ao ritmo do pulmão
porque tudo estava inteiro e completo
e no entanto era o deslumbramento do inacabado
ANTÓNIO RAMOS ROSA
28 de Julho de 1993
.
O inacabado é um clamor deslumbrante
que lento se incendeia no palácio do poente
suas câmaras são arcos rendilhados
suas sombras são flores suas portas silêncios
A glória do imperfeito
é o seu sereno recomeço
firmeza nas mãos trabalhos do olhar
E tão intenso é o seu movimento
de pura ascensão que a música
se suspende nas arpas dos Anjos
e o seu trilho prossegue em meandros
que o crescente saber vai acabando
Saber infiltrado como água
na deriva encontrado e verdadeiro
E se uma rã perturba
o seu calmo labor
é para se incrustar
na pedra de um novo arco
O inacabado cumpre-se no tempo
inteiro se derrama e esboça a eternidade
que a pupila abraça indescritível
MARIA TERESA DIAS FURTADO
30 de Julho de 1993
O ALVOR DO MUNDO
ANTÓNIO RAMOS ROSA e MARIA TERESA DIAS FURTADO
edições quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
.
26.3.11
árvore frondosa
.
saí à rua
as folhas regressavam
aos ramos, os ramos
à seiva exposta do tronco
não se colavam
reencontravam-se
na árvore que todos viam
deu-me folhas verdes
que fomos guardando
em bolsos escondidos
entre páginas brancas
.
saí à rua
as folhas regressavam
aos ramos, os ramos
à seiva exposta do tronco
não se colavam
reencontravam-se
na árvore que todos viam
deu-me folhas verdes
que fomos guardando
em bolsos escondidos
entre páginas brancas
.
22.3.11
.

JOHN BALDESSAIRE, " Tips for Artists Who Want to Sell" - 1966|60
publicado por INTRUSO em seg2.blogspot.com
.

JOHN BALDESSAIRE, " Tips for Artists Who Want to Sell" - 1966|60
publicado por INTRUSO em seg2.blogspot.com
.
21.3.11
a poesia é de todos os dias
.
NASADIYA, HINO DA CRIAÇÃO
1. Outrora não havia existência nem não-existência; não havia a dimensão do espaço nem o céu que esta para além. O que despertou? Onde? Em protecção de quem? Haveria água, profundamente sem fundo?
2. Não havia morte nem imortalidade. Não havia traço distintivo da noite ou do dia. Aquele respirou, sem ar, por seu próprio impulso. Para além disso não havia nada além.
3. A escuridão era escondida pela escuridão no início; sem qualquer traço distintivo, tudo isto era água. A força vital que foi coberta pelo vazio, essa, ergueu-se pelo poder do calor.
4. O Desejo desceu sobre aquela no início; foi a primeira semente da mente. Poetas procurando no seu coração com sabedoria encontraram a reclusão da existência na não-existência.
5. O seu fio foi espalhado em em volta. Haveria abaixo? Haveria acima? Havia semeadores; havia forças. Havia o impulso por baixo; havia o dar acima.
6. Quem o sabe realmente? Quem o vai aqui proclamar? De onde foi produzido? De onde vem a criação? Os deuses vieram depois, com a criação do universo. Quem sabe então de onde se ergueu?
7. De onde se ergueu esta criação - talvez se tenha formado a si mesma, ou talvez não - aquele que o olha para baixo, no mais alto do céu, só ele o sabe - ou talvez não.
ÍNDIA -
RIG VEDA ( c. 1200 a.C. ) - Texto do Hinduísmo
Trad. MANUEL JOÃO MAGALHÃES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
NASADIYA, HINO DA CRIAÇÃO
1. Outrora não havia existência nem não-existência; não havia a dimensão do espaço nem o céu que esta para além. O que despertou? Onde? Em protecção de quem? Haveria água, profundamente sem fundo?
2. Não havia morte nem imortalidade. Não havia traço distintivo da noite ou do dia. Aquele respirou, sem ar, por seu próprio impulso. Para além disso não havia nada além.
3. A escuridão era escondida pela escuridão no início; sem qualquer traço distintivo, tudo isto era água. A força vital que foi coberta pelo vazio, essa, ergueu-se pelo poder do calor.
4. O Desejo desceu sobre aquela no início; foi a primeira semente da mente. Poetas procurando no seu coração com sabedoria encontraram a reclusão da existência na não-existência.
5. O seu fio foi espalhado em em volta. Haveria abaixo? Haveria acima? Havia semeadores; havia forças. Havia o impulso por baixo; havia o dar acima.
6. Quem o sabe realmente? Quem o vai aqui proclamar? De onde foi produzido? De onde vem a criação? Os deuses vieram depois, com a criação do universo. Quem sabe então de onde se ergueu?
7. De onde se ergueu esta criação - talvez se tenha formado a si mesma, ou talvez não - aquele que o olha para baixo, no mais alto do céu, só ele o sabe - ou talvez não.
ÍNDIA -
RIG VEDA ( c. 1200 a.C. ) - Texto do Hinduísmo
Trad. MANUEL JOÃO MAGALHÃES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
20.3.11
há vidas que assustam
.
.
há vidas que assustam
sonhar, mas questionar no sonho
duvidar, ter medo e caminhar
em tempo quase sem existência
ter terra nos pés e nas mãos
cores que cheiram, tocam, sentem
palavras que podem azedar
no fogo que a vida põem no sangue
doar sem rezar
respirar de peito aberto às aves
que alimentam em águas agitadas
e aconchegam de asas abertas
quando descobrem conchas
e algas prateadas nas nascentes de luz
não ser nada que não se seja
ser quando se encontra
quando precisam de encontrar para ser, estar
e vestir-me quando imaginam procurar.
14.3.11
O SÁBIO
.
o gato esta a comer as rosas:
ele é assim.
Não o impeçam, não impeçam
o mundo de girar,
as coisas são assim.
O três de Maio
foi nublado; o quatro de Maio
quem sabe. Varram
a carne das rosas, atirem os restos
à chuva.
Nunca come
todas as migalhas, diz
que os corações são amargos.
Ele é assim, conhece
o mundo e o tempo.
DENISE LEVERTON - E.U.A
Trad. JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
o gato esta a comer as rosas:
ele é assim.
Não o impeçam, não impeçam
o mundo de girar,
as coisas são assim.
O três de Maio
foi nublado; o quatro de Maio
quem sabe. Varram
a carne das rosas, atirem os restos
à chuva.
Nunca come
todas as migalhas, diz
que os corações são amargos.
Ele é assim, conhece
o mundo e o tempo.
DENISE LEVERTON - E.U.A
Trad. JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
10.3.11
ROSA[S] DO MUNDO
.
SOLIDÃO
O rapazinho do campo receia ficar só,
Guarda, junto ao travesseiro, um grilo que lhe conforta o sono.
Ao envelhecer, exausto pelo árduo trabalho citadino,
Compra um relógio de ponteiros luminosos que o acompanha na
noite.
Quando jovem, sentia enorme inveja
do grilo que habitava a erva viçosa no cemitério.
Agora, bafejado pela morte há três horas, jaz inerte;
O seu relógio não pára de contar o tempo.
PIEN CHIH LIN - China
Trad. ARMANDA RODRIGUES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
SOLIDÃO
O rapazinho do campo receia ficar só,
Guarda, junto ao travesseiro, um grilo que lhe conforta o sono.
Ao envelhecer, exausto pelo árduo trabalho citadino,
Compra um relógio de ponteiros luminosos que o acompanha na
noite.
Quando jovem, sentia enorme inveja
do grilo que habitava a erva viçosa no cemitério.
Agora, bafejado pela morte há três horas, jaz inerte;
O seu relógio não pára de contar o tempo.
PIEN CHIH LIN - China
Trad. ARMANDA RODRIGUES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO
.
4.3.11
.
morreu-me um companheiro, soube-o ontem. companheiro de luta, a luta para que a vida não se esvai-a por entre os dedos, embora feridos. mas partir, não se sabe em que dia, sem mão que nos sossegue, dói, dói saber.
se acreditasse numa outra vida, que não a que deixamos, desejava-lhe a melhor, sem me despedir.
.
morreu-me um companheiro, soube-o ontem. companheiro de luta, a luta para que a vida não se esvai-a por entre os dedos, embora feridos. mas partir, não se sabe em que dia, sem mão que nos sossegue, dói, dói saber.
se acreditasse numa outra vida, que não a que deixamos, desejava-lhe a melhor, sem me despedir.
.
1.3.11
[ a __ r ]
.
em sítio algum
papel porta parede
encontrei a palavra
[ ]
correctamente
nomeada
a palavra
devia nascer
sílaba a sílaba
retirada do silêncio
consonântica impoluta
de significações indevidas
ressumbrar nas nossas línguas
[ tapadas ]
secretas
.
em sítio algum
papel porta parede
encontrei a palavra
[ ]
correctamente
nomeada
a palavra
devia nascer
sílaba a sílaba
retirada do silêncio
consonântica impoluta
de significações indevidas
ressumbrar nas nossas línguas
[ tapadas ]
secretas
.
23.2.11
volta Piero, Manzoni nisto
.
a posta bosta à mesa
desce paredes estomacais
e nem finas bocas
se recusam ao manjar
são cifrões reluzentes
que sorrisos tapa olhos
envolvem em dias de feiras
todos os actos são fogueiras e vaidades
e a posta espalha-se
vaporosa cheirosa
filigrana cuidada
por novas mesas adornadas a ouro
a prata sobre azul é tão bonita
e fica muito bem em bosta
e é arte damas e cavalheiros
mostrada para cachorros frios
arte cobiçada arte amada
arte muito dinheiro mercado camas nomes
é arte
é a arte narrativa da feira fogueira
da narrativa da arte necessariamente verificável
é a arte rica novidade novidade
velha a cair de nova
volta Piero, Manzoni nisto
.
a posta bosta à mesa
desce paredes estomacais
e nem finas bocas
se recusam ao manjar
são cifrões reluzentes
que sorrisos tapa olhos
envolvem em dias de feiras
todos os actos são fogueiras e vaidades
e a posta espalha-se
vaporosa cheirosa
filigrana cuidada
por novas mesas adornadas a ouro
a prata sobre azul é tão bonita
e fica muito bem em bosta
e é arte damas e cavalheiros
mostrada para cachorros frios
arte cobiçada arte amada
arte muito dinheiro mercado camas nomes
é arte
é a arte narrativa da feira fogueira
da narrativa da arte necessariamente verificável
é a arte rica novidade novidade
velha a cair de nova
volta Piero, Manzoni nisto
.
21.2.11
noturno
.
e nessa noite
os meus anjos
voaram para ti
nada lhes disse
sabiam que guardando-te
cuidavam de mim
aos anjos não pedi que voltassem
.
e nessa noite
os meus anjos
voaram para ti
nada lhes disse
sabiam que guardando-te
cuidavam de mim
aos anjos não pedi que voltassem
.
9.2.11
Miguel Esteves Cardoso
"... Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
..."
publicado com o título " diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu " em atrama.blogspot.com
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
..."
publicado com o título " diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu " em atrama.blogspot.com
6.2.11
pensar é complexo, problemático, incerto, obscuro...
.
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Alberto Caeiro - InConjuntos
.
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
Alberto Caeiro - InConjuntos
.
4.2.11
recipiente para sentir
.
vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro
vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido
e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.
vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro
vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido
e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.
3.2.11
27.1.11
a pele que as máscaras deixam ver
.
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)
estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)
estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas.
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)
verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia
Metalinguagem - Dicionários online Priberam e Infopédia.
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| estigma(tismo) ao espelho - estudo de óculos para ajuste da percepção da vida técnica mista sobre tela 79x55 cm |
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)
estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)
estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas.
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)
verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia
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6.1.11
4.1.11
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Sei como é bom adormecer alguém! Deixar que a nossa voz presente, embale suavemente os ouvidos que nos devolvem um respirar mais profundo e repousante, as mãos ausentes passeantes pelo cabelo que sabemos sempre esticado e perfeito, pousado numa das nove ou sete almofadas estendidas pela cama.
Ao reler "Pedro, Lembrando Inês" do Miguel Júdice, encontrei o poema "Acordar" e as palavras que me lembraram a voz que adormecia.
"Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada de fora
de nós, é tudo o que temos na vida. "
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2.1.11
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