"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas

5.5.11

há vidas que assustam a pa|lavra [ ] em construção

.


medo tapado
entre portas abertas
dúvidas suspensas
oscilantes nos pontos arqueados do círculo

da vida pedida
auscultação, abrigava-me em gaze apertada

meditava nas ouvidas
interrompidas dilaceradas
nas profusas
habilidades escapistas
antepostas à vida





há vidas que assustam
a pa|lavra [             ]
em construção

história de OsaR

raul albuquerque . objecto a publicar  em Maio de 2011 . edição de autor

.

1.5.11

há vidas que assustam a pa|lavra em construção

.


abertura | vertical | necessária






soterrado por linhas espelhadas
o quadriculado rampeado puxava-me os olhos
nadei no céu azul seco, piscina ao lado
inchada de restos outonais da frondosa árvore. A
nortada restante inclinava-me para
horas quebradas, dias rasurados
antes a porta e o sorriso olhado. Entrei




o dia não aparece. O mês gravou-se devagar na memória




há vidas que assustam
a pa|lavra [             ]
em construção

história de OsaR

raul albuquerque . objecto a publicar  em Maio de 2011 . edição de autor

.

26.4.11

poeta escondido

Natal

A festa hoje dá lugar à melancolia.
Já não somos crianças,
não temos insónias a pensar nos brinquedos
nem sofremos a ansiedade da meia-noite.
Crescemos…
O tempo levou-nos a fé,
levou-nos os avós
levou-nos os pais.
Trouxe-nos os filhos
e a melancolia
de termos sido crianças
e ter sido uma festa.


Rui Spranger

poeta escondido

Há quanto tempo não levanta um homem os braços?

Neste país de brandos costumes a reacção é natural.
Levantam a cabeça porque há Sol
Baixam-na por respeito ao Senhor
Queixam-se nos cafés dos malditos governantes
E gritam golo quando há bola.

Usam um cravo uma vez por ano
E festejam o bendito feriado
Se estiver Sol aproveitam, vão à praia
Se chover, um passeio no shopping
Ou a amiga televisão

Pois é, nem tudo está mal neste país
Pode-se sempre ser feliz
nos dias feriados.




Rui Spranger

6.4.11

rétorica :

.


retórica : tão grande o céu
entrando por minha boca
dentro onde desato a 
voar






três minutos antes
de a maré
encher 
valter hugo mãe
quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL


.

5.4.11

PRINCÍPIOS

.


Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.


Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver


Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.






Nuno Júdice

Pedro,
Lembrando Inês
Dom Quixote


.

4.4.11

palavra-beijo

.

uma  imagem
[ aberta sorri
fuma numa mão
fumo a mão no desejo ]

um nome
[ e anagrama ]

um beijo
[ e é beijo ]
todo o dia nos lábios
[ atlântico o beijo ]
com jardim
e janela ao mar

não sonhei
acordei
abri os olhos
a fotografia um nome e uma palavra-beijo

.

deixa entar no poema

.


" Uma palavra que está sempre na
     boca transforma-se em baba. "
                       PROVÉRBIO BURUNDI




DEIXA ENTRAR NO POEMA
alguns clichés.

Submetidos à experiência inefável,
sua carga ( eléctrica? )
escoar-se-á.

Não há uma vala comum para as palavras
descaídas,
um dicionário no inferno;

mas deixa-as vir à tona
da claridade,
e nada lhes insufles. Vê:
não suportam a beleza
que as circunda, abismam-se
em seu ridículo.



A NOITE DIVIDIDA
SEBASTIÃO ALBA
ASSÍRIO&ALVIM


.

1.4.11

fusão


.


preciso de encontrar o mar
na longa linha de fusão
e nos meus pés
quando se dá à areia que o agarra
precisava que a mão adornada em anel teu
me levasse ao mar que te pertence

preciso do mar e de colares de conchas partilhadas
e cicios a entrelaçar as voltas pousadas no peito


.

28.3.11

O Alvor do Mundo - diálogo poético

.


Eu vi uma vez num poente um palácio lilás
Senti o seu aroma antigo de ervas ressequidas
e pressenti nele um anjo adormecido sobre a sua arpa de água
Dir-se-ia que o mundo não poderia continuar
tão suave era a glória
daquela plácida suspensão
A rosa do repouso a repouso que nunca repousara
descansava num voluptuoso encanto
aberta à luz de prata e de uma lenta púrpura
um pouco obscura
Uma rã coaxava entre as ervas de um lago
sublimando-se com as suas sílabas roufenhas o momento crepuscular
Sentia-me no interior de um barco ou de uma nuvem
que simplificava em pacífico júbilo derramado
os meandros da mente ansiosa
Era um espaço de voluptuosa melancolia
e a pupila respirava ao ritmo do pulmão
porque tudo estava inteiro e completo
e no entanto era o deslumbramento do inacabado




ANTÓNIO RAMOS ROSA
28 de Julho de 1993


.


O inacabado é um clamor deslumbrante
que lento se incendeia no palácio do poente
suas câmaras são arcos rendilhados
suas sombras são flores suas portas silêncios
A glória do imperfeito
é o seu sereno recomeço
firmeza nas mãos trabalhos do olhar
E tão intenso é o seu movimento
de pura ascensão que a música
se suspende nas arpas dos Anjos
e o seu trilho prossegue em meandros
que o crescente saber vai acabando
Saber infiltrado como água
na deriva encontrado e verdadeiro
E se uma rã perturba
o seu calmo labor
é para se incrustar
na pedra de um novo arco
O inacabado cumpre-se no tempo
inteiro se derrama e esboça a eternidade
que a pupila abraça indescritível




MARIA TERESA DIAS FURTADO
30 de Julho de 1993




O ALVOR DO MUNDO
ANTÓNIO RAMOS ROSA  e  MARIA TERESA DIAS FURTADO
edições quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL


.

26.3.11

árvore frondosa

.


saí à rua
as folhas regressavam
aos ramos, os ramos
à seiva exposta do tronco
não se colavam
reencontravam-se
na árvore que todos viam


deu-me folhas verdes
que fomos guardando
em bolsos escondidos
entre páginas brancas


.

21.3.11

a poesia é de todos os dias

.


NASADIYA, HINO DA CRIAÇÃO


  1.  Outrora não havia existência nem não-existência; não havia a dimensão do espaço nem o céu que esta para além. O que despertou? Onde? Em protecção de quem? Haveria água, profundamente sem fundo?
  2.  Não havia morte nem imortalidade. Não havia traço distintivo da noite ou do dia. Aquele respirou, sem ar, por seu próprio impulso. Para além disso não havia nada além.
  3.  A escuridão era escondida pela escuridão no início; sem qualquer traço distintivo, tudo isto era água. A força vital que foi coberta pelo vazio, essa, ergueu-se pelo poder do calor.
  4.  O Desejo desceu sobre aquela no início; foi a primeira semente da mente. Poetas procurando no seu coração com sabedoria encontraram a reclusão da existência na não-existência.
  5.  O seu fio foi espalhado em em volta. Haveria abaixo? Haveria acima? Havia semeadores; havia forças. Havia o impulso por baixo; havia o dar acima.
  6.  Quem o sabe realmente? Quem o vai aqui proclamar? De onde foi produzido? De onde vem a criação? Os deuses vieram depois, com a criação do universo. Quem sabe então de onde se ergueu?
  7.  De onde se ergueu esta criação - talvez se tenha formado a si mesma, ou talvez não - aquele que o olha para baixo, no mais alto do céu, só ele o sabe - ou talvez não.




ÍNDIA - 
RIG VEDA ( c. 1200 a.C. ) - Texto do Hinduísmo
Trad. MANUEL JOÃO MAGALHÃES
ROSA DO MUNDO  -  2001 POEMAS PARA O FUTURO


.

20.3.11

há vidas que assustam

.


há vidas que assustam
sonhar, mas questionar no sonho
duvidar, ter medo e caminhar
em tempo quase sem existência
ter terra nos pés e nas mãos
cores que cheiram, tocam, sentem
palavras que podem azedar
no fogo que a vida põem no sangue
doar sem rezar
respirar de peito aberto às aves
que  alimentam em águas agitadas
e aconchegam de asas abertas
quando descobrem conchas
e algas prateadas nas nascentes de luz

não ser nada que não se seja
ser quando se encontra
quando precisam de encontrar para ser, estar
e vestir-me quando imaginam procurar


.

14.3.11

O SÁBIO

.


o gato esta a comer as rosas:
ele é assim.
Não o impeçam, não impeçam
o mundo de girar,
as coisas são assim.
O três de Maio
foi nublado; o quatro de Maio
quem sabe. Varram
a carne das rosas, atirem os restos
à chuva.
Nunca come
todas as migalhas, diz
que os corações são amargos.
Ele é assim, conhece
o mundo e o tempo.




DENISE LEVERTON  -  E.U.A
Trad. JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO


.

10.3.11

ROSA[S] DO MUNDO

.


SOLIDÃO


O rapazinho do campo receia ficar só,
Guarda, junto ao travesseiro, um grilo que lhe conforta o sono.
Ao envelhecer, exausto pelo árduo trabalho citadino,
Compra um relógio de ponteiros luminosos que o acompanha na
              noite.


Quando jovem, sentia enorme inveja
do grilo que habitava a erva viçosa no cemitério.
Agora, bafejado pela morte há três horas, jaz inerte;
O seu relógio não pára de contar o tempo.




PIEN CHIH LIN - China
Trad. ARMANDA RODRIGUES
ROSA DO MUNDO - 2001 POEMAS PARA O FUTURO


.

4.3.11

.

morreu-me um companheiro, soube-o ontem. companheiro de luta, a luta para que a vida não se esvai-a por entre os dedos, embora feridos. mas partir, não se sabe em que dia, sem mão que nos sossegue, dói, dói saber.
se acreditasse numa outra vida, que não a que deixamos, desejava-lhe a melhor, sem me despedir.

.

1.3.11

[ a __ r ]

.

em sítio algum
papel porta parede
encontrei a palavra
[               ]
correctamente
nomeada


a palavra
devia nascer
sílaba a sílaba
retirada do silêncio
consonântica impoluta
de significações indevidas
ressumbrar nas nossas línguas
[ tapadas ]
  secretas
.

23.2.11

volta Piero, Manzoni nisto

.

a posta bosta à mesa
desce paredes estomacais
e nem finas bocas
se recusam ao manjar
são cifrões reluzentes
que sorrisos tapa olhos
envolvem em dias de feiras
todos os actos são fogueiras e vaidades
e a posta espalha-se
vaporosa cheirosa
filigrana cuidada
por novas mesas adornadas a ouro
a prata sobre azul é tão bonita
e fica muito bem em bosta
e é arte damas e cavalheiros
mostrada para cachorros frios
arte cobiçada arte amada
arte muito dinheiro mercado camas nomes
é arte
é a arte narrativa da feira fogueira
da narrativa da arte necessariamente verificável
é a arte rica novidade novidade
velha a cair de nova


volta Piero, Manzoni nisto

.

21.2.11

noturno

.

e nessa noite
os meus anjos
voaram para ti

nada lhes disse
sabiam que guardando-te
cuidavam de mim


aos anjos não pedi que voltassem
.

9.2.11

Miguel Esteves Cardoso

"... Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
..."


publicado com o título " diz o Francisco que foi o Esteves Cardoso que escreveu " em atrama.blogspot.com

6.2.11

pensar é complexo, problemático, incerto, obscuro...

.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Alberto Caeiro - InConjuntos

.

4.2.11

recipiente para sentir

.

vaso bruto plano
preto
fora mate
dentro reflecte
arco-íris rubro

vaso volumétrico
agora preto
dentro ainda vivo
fora sempre adornado
arco-íris escondido

e a arca suspensa por palavras
psi-jogadas
.

3.2.11

.

sonegar o olhar
com rosmaninho
construtor de favos e mel
não engana as abelhas

o pólen solta-se
pelos gestualizados poros
no sonho transparente
dos olhos no vidro da mesa
guardados pela tampa
roscada escarlate
não mexer senão salta

.

27.1.11

a pele que as máscaras deixam ver

.


estigma(tismo) ao espelho - estudo de óculos para ajuste da percepção da vida
técnica mista sobre tela
79x55 cm
 
estigma
nome masculino
1. marca deixada por uma ferida, cicatriz perdurável
2. marca infamante feita com ferrete, aplicada antigamente a escravos e criminosos
3. Figurado labéu; nota de infâmia; sinal vergonhoso; mancha na reputação4. Medicina sinal persistente e característico de uma dada doença5. Botânica abertura superior do pistilo por onde entra o pólen; parte do carpelo das angiospérmicas onde cai e germina o grânulo de pólen6. Zoologia abertura no tegumento dos artrópodes que respiram por traqueias, e que põe estas em comunicação com o exterior; orifício lateral da traqueia dos insectos
8. [plural] feridas nas mãos, pés e peito, semelhantes às cinco chagas de Cristo crucificado
(Do gr. stígma, stigmatós, «marca de ferro em brasa», pelo lat. stigma, -àtis, «estigma; ferrete»)


estigmatismo
nome masculino
Física propriedade que apresentam certos sistemas ópticos de dar, de um objecto pontual, uma imagem também pontual; o único sistema óptico rigorosamente estigmático para todos os pontos é o espelho plano.
(Do lat. stigma, -àtis, «estigma» +-ismo)


estigmatizar
verbo transitivo
1. marcar com estigmas. 
2. figurado verberar; censurar; condenar
(Do gr. stigmatízein, «marcar com ferro em brasa» +-ar)


verberar
verbo transitivo
1. Flagelar; fustigar.
2. figurado condenar; censurar asperamente; reprovar com energia


Metalinguagem - Dicionários online Priberam e Infopédia.
.

4.1.11

.
Sei como é bom adormecer alguém! Deixar que a nossa voz presente, embale suavemente os ouvidos que nos devolvem um respirar mais profundo e repousante, as mãos ausentes passeantes pelo cabelo que sabemos sempre esticado e perfeito, pousado numa das nove ou sete almofadas estendidas pela cama.
Ao reler "Pedro, Lembrando Inês" do Miguel Júdice, encontrei o poema "Acordar" e as palavras que me lembraram a voz que adormecia.

"Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes... Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro - isso que, não sendo nada de fora
de nós, é tudo o que temos na vida. "
.

1.1.11

a pele que as máscaras deixam ver

.






























A sensação/realidade presente durante a construção dos trabalhos a apresentar, foi de
permanente diagonal, a queda. Sabia que a qualquer momento podia estatelar-me no chão, as oblíquas da horizontalidade obrigavam-me a cheirar o chão que pisava, tornando quase impossível a verticalidade.
.

28.12.10

A pele que as máscaras deixam ver




Texto quase integral, encontrado com máscaras simples em 2009

" Máscara Higiénica
Esta máscara não é um EPI ( Equipamento de Protecção Individual )
Certifique-se sempre que as máscaras são as adequadas e estão devidamente ajustadas. Como qualquer máscara, o uso incorrecto ou o não seguimento das instruções, pode levar a doenças graves ou incapacidadedevido, à exposição em atmosferas perigosas...
Aviso:... Apenas e só, devem ser usadas para reduzir o desconforto provocado pela exposição a partículas não tóxicas e para ajudar a proteger o produto da respiração do utilizador. "



18.12.10

.

por traz dos olhos
fundo onde permanece
a reserva de favos
que o fogo impetuoso
ainda não destruiu
resiste a cera que suporta
o mel cristalino e puro
que vou tragando

que dissonância
sobreponho ao indecifrável
timbre que me arde e rebenta
de não ouvir tocar em movimento
que cedo afirmei

que dissonância impiedosa
me troca o tempo que atiro
como se ontem fosse dúvida
que não devia existir

e que dissonância soa
quando o pólen incandescente
que é a norma iniciática
está em face de moldagem
e arrefecimento consistente
que a raridade me faz perceber
que a excepção confunde a regra

tenho que engolir as palavras
que o mel me dá
e beija-las quando os lábios
se encontrarem na rua escolhida
certa pelo fuso e hora
que podem não ser

descongelo o meu tempo
que nada frio dissone a essência
inquestinável

.




4.12.10

Tenho, por estes longos e deliciosos dias, confrontado-me com a vida no seu estado mais puro. Uma vontade imensurável de a amar em toda a sua plenitude; nos problemas, na angústia das permanentes incertezas, no trabalho que estou a desenvolver para um evento expositivo para Janeiro, nas pequenas coisas que vou soltando em forma de escrita e na disponibilidade desejada para sentir os outros e deixar que me sintam a mim.

Ontem, em conversa intensa e interessante, que a determinada altura transbordou do leito normalmente sereno e fluído do meu rio, por questões de semântica e amplitude compreensiva toldada, pressenti que a inundação não prevista, não podia estar relacionada com as nuvens que tinham acabado de passar. Inconsequente, a almofada adormeceu-me.
Ao acordar, lembrei-me do Antoni Tàpies e de um artigo que escreveu em 1970, " Nada é Mesquinho", em que ele faz o esforço de tentar explicar por palavras, o que a todo o instante lhe é solicitado sobre a sua obra - " Além disso, pensamos também: não é o meu trabalho, para isso existem os críticos e os comentadores de arte que o podem fazer. Mas os remorsos que nos provoca a constância de tanta gente de boa fé não param de espicaçar-nos. ... Geralmente, quem pergunta quer saber qualquer coisa de uma obra determinada, ou até apenas de um sinal ou de um fragmento concreto. E hoje,..., o sentido de uma obra não se encontra sequer na própria obra, pois a obra está relacionada com muitas outras, próprias ou alheias. Explicar uma obra de arte já é quase fazer toda a história da arte do nosso tempo." Recorrendo a parábolas e metáfora, remetendo para situações comparativas com outras artes e posturas de contemplação e práticas da arte em outras civilizações, continua o esforço. "...Olhemos finalmente para uma determinada obra minha, posto que o leitor deve querer saber de uma vez por todas como é que me vou desenvencilhar de tudo isto. E vamos pegar numa difícil, para ser mais engraçado. Numa que foi discutida e a propósito da qual alguém me disse, apesar de ser meu amigo, ser-lhe impossível ver nela fosse o que fosse. Trata-se de uma obra feita com fibra vegetal, uma espécie de filamentos de palha muito frisadas que se costumam utilizar para atapetar ou encher colchões. Intitula-se "Palha e Madeira".
A obra é uma tela branca, com palha entrelaçada colada e dividida em duas partes por uma ripa de madeira. Meticulosamente vai descrevendo a simbologia utilitária e cultural da palha, material pobre e de utilização desqualificada,"...E tudo isto não é por sentimentalismo nem por qualquer gosto "artístico" pela miséria, mas sim para fazer compreender a " naturalidade primeira" da dialética e da luta de todas as coisas,...", bem como a importância do dois resultante da divisão,"...Os entendidos em simbolismos aplicados à arte - embora, prudentemente, quase nunca extraiam de tudo isto consequências práticas - dir-nos-iam, claro, muito sobre mais coisa do que eu sobre este dois: a oposição, o conflito, a reflexão, o equilíbrio ( ou o desequilíbrio em potência), o criador e a coisa criada, o preto e o branco, o masculino e o feminino, o yin e o yang, a vida e a morte, o bem e o mal, o alto e o baixo."

Quando me perguntam pela vida, tenho maiores dificuldade em a mostrar que o Tàpies tem em relação à sua Obra; não tenho o génio nem a mestria ou erudição e vida vivida que o Mestre tem, por isso vou cita-lo, "...Para o pintor existe apenas um monte de palha, e um dois. E ainda um dois que é um. E todos têm o direito a dizer-lhe, se quiserem, que é um farsante, que tudo isso é falso, que é um engano. Porque ele julga o mesmo. Um quadro não é nada. É uma porta que conduz a outra porta. A arte, por mais excelente que seja, será sempre mais uma manifestação da "maya", do engano que tudo é. E nunca encontraremos a verdade que procuramos num quadro, pois esta aparecerá depois da última porta que o contemplador souber franquear com o seu próprio esforço. E quanto mais importante for o quadro, e mais importantes as personagens nele pintadas, e mais cores e mais camadas de tinta nele houver, mais espesso será o véu que nos ofusca a verdade e menos encontraremos o caminho."
Embora tenha iniciado o texto de forma optimista, de vez em quando também me apetece fazer como o Mestre, embora a componente do sonho esteja suspensa, "...E então, penso que mais vale virar costas a tudo e sentarmo-nos numa cadeira, como um dia me disse a minha companheira que fiz num sonho; uma cadeira a flutuar no meio da brancura do espaço infinito; e, de repente, olhar para a terra e sentir aquela emoção tão intensa e sublime que a fez chorar vivamente ao ver espalhadas umas migalhas de coisas, nada, uns resíduos ligeiros, uns fios de palha..."

O frémito impulsionador que me impele para a incontornável afirmação de algumas coisas na vida, que não sei separar da arte, não é ofuscado por caldeirões de ouro que me vão seduzindo para descansar. Gosto da palha para repousar o espírito, mesmo que me incomode o corpo.
O galgar das margens afinal aconteceu, pela preocupação afectuosa de perceberem se o pão que tenho que conquistar, ainda estava em farinha ou no forno a cozinhar.


As citações foram retiradas do livro
" Antoni Tàpies - a prática da arte "
Edições Cotovia

1.12.10

Trago sempre comigo um livro, se poder chamar livro a um objecto que quando o abro à procura do que me está à acontecer, do que ainda pode vir, do que não sei dizer ou não encontro forma de esclarecer me responde sem página marcada nem linha sublinhada. Deixa-me, sem nada pedir, levar-lhe palavras significativas e fica inteiro. Quando volto, encontro-o sempre refeito e sinto-lhe o prazer da conversa. Os livros são assim quando os tornamos nossos, vivem ao nosso lado, respira-nos os olhos e alimentam-nos sempre.

" A intensidade de uma dor suscita não a paciência nem a aceitação mas a negação e o ressentimento. Perante a agressão anónima do corpo o espírito perde a tranquilidade e é incapaz de se sobrepor à violência que o nega e o confunde. A esta negação natural o espírito opõe a violência de uma negação gratuita e inoperante. O ser não pode construir nenhum abrigo, uma vez que a dor é a ruptura insuperável de qualquer construção e a imposição e exposição do insuportável para a qual não existe nenhum subterfúgio nem estratégia de abafamento ou de redução. Para esses momentos o construtor não tem nenhum plano, apenas a sala vazia que não sabe como preencher e que provavelmente ficará vazia.

O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa "

24.11.10

.

preciso de encontrar-me
com o mar
na longa linha horizontal
de fusão
e nos meus pés
quando se dá
ao chão que o agarra

preciso de uma mão
que me leve
para conversarmos todos

.