O PROVEDOR
Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para
ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.
MANOEL DE BARROS
POESIA COMPLETA
CAMINHO 2011
9.3.12
Coisas sensíveis em equilíbrio - MANUEL ZIMBRO
...
o que quer que seja só pode ser abordado segundo um aspecto,
e, segundo esse aspecto é registado na memória.
é impossível abordar e registar completamente uma Coisa, apenas se regista uma parte;
aquela que importa ou que convém.
daí que, mesmo útil, todo o registo seja parcial.
...
história secreta da aviação
notas com gravidade para pôr em orbita uma aspiração comum
SHINGEN MANUEL ZIMBRO
PORTA33
Ilha da Madeira - 1997
o que quer que seja só pode ser abordado segundo um aspecto,
e, segundo esse aspecto é registado na memória.
é impossível abordar e registar completamente uma Coisa, apenas se regista uma parte;
aquela que importa ou que convém.
daí que, mesmo útil, todo o registo seja parcial.
...
história secreta da aviação
notas com gravidade para pôr em orbita uma aspiração comum
SHINGEN MANUEL ZIMBRO
PORTA33
Ilha da Madeira - 1997
5.3.12
.
longe,
as cinzas não se movem
[ só a memória é matéria de reconhecimento ]
caminho meio andado
uma leve brisa sem origem específica
[ ignoro a vida da natureza ]
mexe na superfície mais vulnerável
antes dos pés pisarem
já o corpo sopra
as partículas mais finas da vulnerabilidade
cinzas, corpo dos pés
a mesma forma de outra ignorância minha
.
longe,
as cinzas não se movem
[ só a memória é matéria de reconhecimento ]
caminho meio andado
uma leve brisa sem origem específica
[ ignoro a vida da natureza ]
mexe na superfície mais vulnerável
antes dos pés pisarem
já o corpo sopra
as partículas mais finas da vulnerabilidade
cinzas, corpo dos pés
a mesma forma de outra ignorância minha
.
20.2.12
SOM PURO - António Barahona
Sentado a esta mesa,
frente a um relógio sem ponteiros,
contemplo este momento
parado em grande plano
de som puro
Envelheço vidente e severo,
recolhido,
de tudo despojado menos
d´estar vivo.
O SOM DO SÔPRO
ANTÓNIO BARAHONA
Poesia Incompleta - 2011
16.2.12
A EQUAÇÃO DE DRAKE . MANUEL ANTÓNIO PINA
( Numa exposição de Ilda David )
Entre duas águas
( entre H e HO )
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.
Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.
9/5/99
MANUEL ANTÓNIO PINA
NENHUMA PALAVRA
E NENHUMA LEMBRANÇA
ASSÍRIO&ALVIM
Entre duas águas
( entre H e HO )
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.
Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.
9/5/99
MANUEL ANTÓNIO PINA
NENHUMA PALAVRA
E NENHUMA LEMBRANÇA
ASSÍRIO&ALVIM
14.2.12
7
sem promessas ou castelos
sabemos que sempre
é hoje
e a casa de pele
porosa às palavras
com língua dentro
imagens | Kitsune JOÃO PENALVA
arranjo | CRISTINA BARTLEBY
4.2.12
DÍVIDA . Carlos Nejar
A dívida aumenta.
A do país e a nossa.
Cada manhã sabemos
que se acumula dívida.
A grama que pisamos
é divida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
Antologia Poética de CARLOS NEJAR
DÍVIDA de ÁRVORE DO MUNDO - 1977
Prefácio, organização e selecção de António Osório - Pergaminho
A do país e a nossa.
Cada manhã sabemos
que se acumula dívida.
A grama que pisamos
é divida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
Antologia Poética de CARLOS NEJAR
DÍVIDA de ÁRVORE DO MUNDO - 1977
Prefácio, organização e selecção de António Osório - Pergaminho
31.1.12
Manusmriti ( As Leis de Manu ) . ROSA DO MUNDO
.
Índia Manusmriti ( As Leis de Manu )
Índia Manusmriti ( As Leis de Manu )
CRIAÇÃO
Ao fim desse dia e noite, aquele que estava adormecido acorda, e depois de acordar, cria a mente, que é simultaneamente real e irreal.
A mente, impelida pelo desejo de criar, desempenha a tarefa da criação transformando-se a si mesma, e é daí criado o éter; dizem que o som é à natureza deste.
Mas do éter, modificando-se a si mesmo, floresce o vento puro e poderoso, veículo de todos os perfumes; diz-se possuir a qualidade do tacto.
Do vento que se transforma nasce a luz brilhante, que ilumina a dissipa a escuridão; diz-se possuir a qualidade da cor.
E da luz, que se modifica a si mesma, nasce a água, possuindo a qualidade do paladar, e da água vem a terra que tem a qualidade do olfacto; é a criação no seu início.
TRAD.: MANUEL JOÃO MAGALHÃES
R O S A DO M U N D O
2001 POEMAS PARA O FUTURO
ASSÍRIO&ALVIM
ASSÍRIO&ALVIM
A LIÇÃO DOS GRAFITTI . álvaro lapa
Varel caminha agora no campo ameno dos cactos, das trepadeiras, dos coelhos. Vai olhando em volta, satisfeito pela aragem que de momento se elevou. Afasta alguma sarça mais cerrada, busca o caminho por entre arbustos cada vez mais duros e a atenção eleva-se-lhe para o sol que oscila entre os ramos. O terreno desce agora para um nítido vale onde avista pedras e um regato. Escorrega até ao fundo do pequeno abismo poeirento, e salta o regato para a outra margem. Sombrio, o lugar. Senta-se no chão e agarra o solo. A seu lado uma pedra grande, de sob cuja poeira irradia um nítido traçado intencional. Limpa e lê :
O CAMPO É MUITO VASTO.
álvaro lapa raso
como o chão
editorial estampa 1977
O CAMPO É MUITO VASTO.
álvaro lapa raso
como o chão
editorial estampa 1977
26.1.12
EM CÍRCULO, OUVI . PAUL CELAN
.
EM CÍRCULO, OUVI
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas -
Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.
O grito de uma flor
anseia por uma existência
PAUL CELAN
A MORTE É UMA FLOR
POEMAS DO ESPÓLIO
EDIÇÃO BILINGUE
TRADUÇÃO, POSFÁCIO E NOTAS DE JOÃO BARRENTO
COTOVIA
EM CÍRCULO, OUVI
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas -
Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.
O grito de uma flor
anseia por uma existência
PAUL CELAN
A MORTE É UMA FLOR
POEMAS DO ESPÓLIO
EDIÇÃO BILINGUE
TRADUÇÃO, POSFÁCIO E NOTAS DE JOÃO BARRENTO
COTOVIA
24.1.12
BEATITUDE . Nuno Júdice
.
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Publicações Dom Quixote
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Publicações Dom Quixote
23.1.12
AS MUSAS CEGAS . herberto helder
.
IV
Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minutos a minutos mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, e o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro de casa.
No mundo tão concreto.
herberto helder
POESIA TODA
assírio&alvim
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro de casa.
No mundo tão concreto.
herberto helder
POESIA TODA
assírio&alvim
8.1.12
Friedrich Hölderlin . FRAGMENTOS DE PÍNDARO
O Infinito.
Se da justiça o muro,
O alto, ou a sinuosa ilusão eu
Escalo, e assim, a mim mesmo me
Circunscrevendo, me vivo
Para fora, quanto a isso
Tenho num duplo sentido
O ânimo para o dizer com precisão.
Uma graça do sábio, e o enigma quase ficaria por resolver. A oscilação e o conflito entre justiça e sagacidade resolve-se de facto apenas na relação ininterrupta. " Tenho num duplo sentido o ânimo para dizer com precisão. " Que eu encontre então a coesão entre justiça e sagacidade, que terá de ser atribuída não a elas mesmas mas a um terceiro, através do qual elas se mantêm infinitamente ( com precisão ) ligadas, é quanto a isso que tenho um dividido ânimo.
Friedrich Hölderlin
FRAGMENTOS DE PÍNDARO
tradução, notas e posfácio
BRUNO C. DUARTE
ASSÍRIO & ALVIM
25.12.11
coitado do bacalhau
Panamá, Cunas
CANTO DA SOLIDARIEDADE
Distribua-se o peixe do mar,
distribua-se o sável,
distribua-se o peixe-serra pequeno,
distribua-se o sável pequeno,
distribua-se o tubarão,
distribua-se o pargo.
O caminho do peixe, parece que Deus o fez de ouro.
O flautista chama pela rapariga,
diz-lhe que se agarre bem à ponta da sua camisa.
Distribua-se o mero,
distribuam-se as conchas presas às rochas,
distribua-se a lagosta,
distribuam-se os caranguejos,
distribua-se o marisco que vive como se risse com a boca aberta aferrada à rocha,
distribua-se a carne dos moluscos do rio,
distribuam-se os camarões,
distribua-se o mero do rio,
distribua-se a iguana que se esconde na copa da árvore de pau-santo.
De ouro, o caminho do peixe, parece que o fez de ouro,
parece que Deus fez de ouro o caminho do peixe.
CANTO DA SOLIDARIEDADE
Distribua-se o peixe do mar,
distribua-se o sável,
distribua-se o peixe-serra pequeno,
distribua-se o sável pequeno,
distribua-se o tubarão,
distribua-se o pargo.
O caminho do peixe, parece que Deus o fez de ouro.
O flautista chama pela rapariga,
diz-lhe que se agarre bem à ponta da sua camisa.
Distribua-se o mero,
distribuam-se as conchas presas às rochas,
distribua-se a lagosta,
distribuam-se os caranguejos,
distribua-se o marisco que vive como se risse com a boca aberta aferrada à rocha,
distribua-se a carne dos moluscos do rio,
distribuam-se os camarões,
distribua-se o mero do rio,
distribua-se a iguana que se esconde na copa da árvore de pau-santo.
De ouro, o caminho do peixe, parece que o fez de ouro,
parece que Deus fez de ouro o caminho do peixe.
VERSÃO : HERBERTO HELDER
ROSA DOS MUNDOS
2001 POEMAS PARA O FUTURO
2.12.11
O espaço, que ninguém pode desenhar
O espaço, que ninguém pode desenhar, porque é imperceptível como
meio e origem dos nossos gestos e da nossa permanente habitação, é
o fundamento absoluto do nosso ser temporal e da nossa continuida-
de de sempre recomeçada. Se essa coordenada da nossa existência vacila,
perde-se o equilíbrio essencial e a nossa relação viva com o mundo
torna-se impossível e insustentável. Por isso, a construção será uma
construção do espaço com todas as aberturas necessárias para que a
orientação vital se assegure nas grandes linhas das paisagens e nas
passagens que serão as órbitas suaves e frementes de imprevisíveis
astros.
O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa
UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
edições quasi
edições quasi
15.11.11
personagens em fuga
espero
[
livre
de Quibir ]
e junto à poltrona
amanso
dragões com nuvéns
nevoeiro
com flores
pétalas
com passáros
rebentando olhos na boca
todos
aos pares
espero
[
embutido
na
brecha ]
e
escrevo com flores caídas
nas
núvens do mar
enquanto
pássaros implodem
[
pedaços inocentes ]
arrancados
a dente da garganta de Munch
espero
[
pelos gritos das personagens em fuga ]
mundos e portas
Malditos poetas, mau caminho na terra e no mundo que gosta de alcatrão, novo, laboratorial, sem base fóssil. O mundo tem mundos e portas dentro da porta do mundo, e as raparigas perguntam as respostas sem espelhos ou espelhos das portas no mundo da porta que a rapariga abre, antes da porta, no mundo do espelho apagado na porta de outro espelho... que poeta pode ser o que uma rapariga precisa do mundo? A porta - nada mais - sem espelho, luz ou sombra caída, quando a rapariga não vê a poesia e pergunta ao poema onde está o poeta;
em que bolso escondes a chave?
malditos poemas com poetas dentro, horas deixadas no espelho embaciado, sem estrela ou significante aparentemente plausível, ruminados e mesmo assim mundo para porta com portas e mundos dentro.
11.11.11
4.11.11
os deuses enlouqueceram por um deus
os deuses enlouqueceram por um deus
loucos perigosamente deuses
os loucos devem ser loucos
sem deuses nem deus
deus normalmente louco
enfartou-se em nome dos deuses
29.10.11
outro eu
paredes construídas
alvenaria ou outras
invisivelmente circulares - dentro
ou fora impenetráveis
e o ar pulmonar da respiração
fixa os poros indisponíveis
outros
indizível
circulação ou existência
alvenaria ou outras
invisivelmente circulares - dentro
ou fora impenetráveis
e o ar pulmonar da respiração
fixa os poros indisponíveis
outros
indizível
circulação ou existência
9.10.11
estando numa ilha, a ilha é forma inacabado, círculo não fechado. mesmo que se inicie a viagem num ponto rigorosamente geométrico, kandinskiano - interior|exterior, a chegada a esse ponto - exterior|interior, nunca é uma sucessão de pontos iguais: o caminho relevado, conta-nos sempre uma história diferente. o ar que se respira num ponto não é nunca o mesmo que no ponto anterior ou no seguinte. mesmo na dureza, que pensamos ser a monotonia da passagem do tempo, igual pela ocultação da diferença da respiração, pelo entropeço da obrigação de não sentir, está sempre uma variação desconhecida, se, nos proporcionarem a possibilidade de podermos pensar, e pensando, esforço necessário, sentirmos que não existem ilhas. a água é matéria que nos suporta para podermos caminhar, as ondas rebentadas voltam diferentes contendo elementos anteriores, mas outras. as núvens são ondas que rebentaram e suavemente subiram para carregadas baixarem num outro ponto contendo partículas dos anteriores. somos sempre o outro, não podemos ser ilhas.
era bonito que este espaço de tempo que por aqui ando, ouvisse menos vezes - não há almoços grátis! o que ganho com isso?
era bonito que este espaço de tempo que por aqui ando, ouvisse menos vezes - não há almoços grátis! o que ganho com isso?
5.10.11
Bolso|Bolsa
Despi o bolso. Encontrei nada. Nada, não, vazio! O silêncio é nada? O escuro é nada?
Vi a bolsa, as flutuações, perdas e ganhos, rapidez de variações, comentários sobre o vazio das medidas, quilómetros ou toneladas para os mercados... e encontrei o que nos vai faltando. Mercado paralelo, o nosso mercado, paralelo ao deles. Nada que o vazio não nos faça entender que é urgente criar outros pontos de perspectiva, sem fuga, para compor a justeza da volumetria.
Vi a bolsa, as flutuações, perdas e ganhos, rapidez de variações, comentários sobre o vazio das medidas, quilómetros ou toneladas para os mercados... e encontrei o que nos vai faltando. Mercado paralelo, o nosso mercado, paralelo ao deles. Nada que o vazio não nos faça entender que é urgente criar outros pontos de perspectiva, sem fuga, para compor a justeza da volumetria.
21.9.11
levadas
pés - leves,
finos - desamarrados
de cordas etéreas
fluído caído
como cabelos espantados
pela gravidade do ar
varanda, a varanda aberta,
que o mar puxa para os olhos
deixados na cama
desprotegidos do corpo
finos - desamarrados
de cordas etéreas
fluído caído
como cabelos espantados
pela gravidade do ar
varanda, a varanda aberta,
que o mar puxa para os olhos
deixados na cama
desprotegidos do corpo
25.6.11
especular
.
medindo
olhos apoiados em neurónios
o espaço da memória
|varal sitiado, encoberto |
encontro peças inteiras
alumiadas
clareiras abertas
por vontades alheias
pode o tempo
significar agora e depois
se antes escorreu
gretando superfícies duras
entranhando-se em lençóis freáticos
lavados no mar
pode,
se registado
em espaços memoriados
de vontades próprias
alheadas da origem
.
medindo
olhos apoiados em neurónios
o espaço da memória
|varal sitiado, encoberto |
encontro peças inteiras
alumiadas
clareiras abertas
por vontades alheias
pode o tempo
significar agora e depois
se antes escorreu
gretando superfícies duras
entranhando-se em lençóis freáticos
lavados no mar
pode,
se registado
em espaços memoriados
de vontades próprias
alheadas da origem
.
23.6.11
ca|c|os . [re]construção
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
22.6.11
21.6.11
17.6.11
ca|c|os
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
9.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
reescrito a 2017
.
7.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
5.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ ] em construção
.
medo tapado
entre portas abertas
dúvidas suspensas
oscilantes nos pontos arqueados do círculo
da vida pedida
auscultação, abrigava-me em gaze apertada
meditava nas ouvidas
interrompidas dilaceradas
nas profusas
habilidades escapistas
antepostas à vida
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
1.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra em construção
.
abertura | vertical | necessária
soterrado por linhas espelhadas
o quadriculado rampeado puxava-me os olhos
nadei no céu azul seco, piscina ao lado
inchada de restos outonais da frondosa árvore. A
nortada restante inclinava-me para
horas quebradas, dias rasurados
antes a porta e o sorriso olhado. Entrei
o dia não aparece. O mês gravou-se devagar na memória
abertura | vertical | necessária
soterrado por linhas espelhadas
o quadriculado rampeado puxava-me os olhos
nadei no céu azul seco, piscina ao lado
inchada de restos outonais da frondosa árvore. A
nortada restante inclinava-me para
horas quebradas, dias rasurados
antes a porta e o sorriso olhado. Entrei
o dia não aparece. O mês gravou-se devagar na memória
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
26.4.11
poeta escondido
Natal
A festa hoje dá lugar à melancolia.
Já não somos crianças,
não temos insónias a pensar nos brinquedos
nem sofremos a ansiedade da meia-noite.
Crescemos…
O tempo levou-nos a fé,
levou-nos os avós
levou-nos os pais.
Trouxe-nos os filhos
e a melancolia
de termos sido crianças
e ter sido uma festa.
Rui Spranger
Já não somos crianças,
não temos insónias a pensar nos brinquedos
nem sofremos a ansiedade da meia-noite.
Crescemos…
O tempo levou-nos a fé,
levou-nos os avós
levou-nos os pais.
Trouxe-nos os filhos
e a melancolia
de termos sido crianças
e ter sido uma festa.
Rui Spranger
poeta escondido
Há quanto tempo não levanta um homem os braços?
Neste país de brandos costumes a reacção é natural.
Levantam a cabeça porque há Sol
Baixam-na por respeito ao Senhor
Queixam-se nos cafés dos malditos governantes
E gritam golo quando há bola.
Usam um cravo uma vez por ano
E festejam o bendito feriado
Se estiver Sol aproveitam, vão à praia
Se chover, um passeio no shopping
Ou a amiga televisão
Pois é, nem tudo está mal neste país
Pode-se sempre ser feliz
nos dias feriados.
Rui Spranger
Neste país de brandos costumes a reacção é natural.
Levantam a cabeça porque há Sol
Baixam-na por respeito ao Senhor
Queixam-se nos cafés dos malditos governantes
E gritam golo quando há bola.
Usam um cravo uma vez por ano
E festejam o bendito feriado
Se estiver Sol aproveitam, vão à praia
Se chover, um passeio no shopping
Ou a amiga televisão
Pois é, nem tudo está mal neste país
Pode-se sempre ser feliz
nos dias feriados.
Rui Spranger
6.4.11
rétorica :
.
retórica : tão grande o céu
entrando por minha boca
dentro onde desato a
voar
três minutos antes
de a maré
encher
valter hugo mãe
quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
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retórica : tão grande o céu
entrando por minha boca
dentro onde desato a
voar
três minutos antes
de a maré
encher
valter hugo mãe
quasi - UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
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5.4.11
PRINCÍPIOS
.
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
Nuno Júdice
Pedro,
Lembrando Inês
Dom Quixote
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