INFORMAÇÕES SOBRE A MUSA
Musa pegou no meu braço. Apertou.
Fiquei excitadinho pra mulher.
Levei ela para um lugar ermo ( que eu tinha que fazer uma
lírica ):
- Musa, sopre de leve em meus ouvidos a doce poesia,
a de perdão para os homens, porém... quero seleção,
ouviu?
- Pois sim, gafanhoto, mas arreda a mão daí que a hora
é imprópria, sá?
Minha musa sabe asneirinha
Que não devia de andar
Nem na boca de um cachorro!
Um dia briguei com Ela
Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
- Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem para cavalo; e até logo, vou
gozar da vida; vocês poetas são uns intersexuais...
E por de japa ajuntou:
- Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor
de corno; por que não vai nela ?
Manoel de Barros
POESIA COMPLETA
CAMINHO - 2011
30.3.12
28.3.12
Friedrich Hölderlin - FRAGMENTOS DE PÍNDARO
A idade
Quem de forma justa e sagrada
Passa a vida,
Docemente alimentando-lhe o coração,
Longa vida criando,
A esse acompanha-o a esperança, que
À maioria dos mortais
Rege a tão versátil opinião.
Uma das mais belas imagens da vida, o modo como os costumes
inocentes preservam o coração vivo, de onde nasce a esperança;
esta concede então também à simplicidade um florescimento, com
as suas diversas tentativas, e torna ágil o sentido, e tão longa a vida,
na sua demora precipitada.
Quem de forma justa e sagrada
Passa a vida,
Docemente alimentando-lhe o coração,
Longa vida criando,
A esse acompanha-o a esperança, que
À maioria dos mortais
Rege a tão versátil opinião.
Uma das mais belas imagens da vida, o modo como os costumes
inocentes preservam o coração vivo, de onde nasce a esperança;
esta concede então também à simplicidade um florescimento, com
as suas diversas tentativas, e torna ágil o sentido, e tão longa a vida,
na sua demora precipitada.
Friedrich Hölderlin
FRAGMENTOS DE PÍNDARO
tradução, notas e posfácio
BRUNO C. DUARTE
ASSÍRIO & ALVIM
26.3.12
COBRA | O espelho é uma chama cortada, um astro . herberto helder
O espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
às janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.
Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.
É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam
Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.
E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se,
súbita e solar - equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo do girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrelas metalúrgicas
a colher em órbita
- a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
com os electrões fechados.
herberto helder
POESIA TODA
ASSÍRIO&ALVIM 1990
20.3.12
HISTÓRIA DE UMA DOENÇA . CHARLES TOMLINSON
.
III
Palpitando nas palavras?
O verso não sabe
onde a doença se torna dança
nem a pode repetir:
é esta a dádiva
com que não contava:
por mim nunca a escolheria,
nem a posso enjeitar:
rodopiando e dançando,
ou assim parece -
a despeito da dupla
violência de luz e de sonhos:
este é o anjo com a espada
a cintilante palavra de dois gumes
uma hesitação à entrada
do Éden, tarde, ou cedo.
CHARLES TOMLINSON
Poemas
Selecção e tradução
de GUALTER CUNHA
Cotovia - 1992
III
Palpitando nas palavras?
O verso não sabe
onde a doença se torna dança
nem a pode repetir:
é esta a dádiva
com que não contava:
por mim nunca a escolheria,
nem a posso enjeitar:
rodopiando e dançando,
ou assim parece -
a despeito da dupla
violência de luz e de sonhos:
este é o anjo com a espada
a cintilante palavra de dois gumes
uma hesitação à entrada
do Éden, tarde, ou cedo.
CHARLES TOMLINSON
Poemas
Selecção e tradução
de GUALTER CUNHA
Cotovia - 1992
14.3.12
11.3.12
O fio da fábula . Jorge Luis Borges
.
O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de
Teseu (na outra estava a espada) para que este se
aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o
homem com cabeça de touro, ou como pretende
Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse
e pudesse, já executada a proeza, desentrelaçar as
teias de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia
saber que do outro lado do labirinto estava o outro
labirinto, o do tempo, e que em algum lugar de
antemão fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também.
Agora nem mesmo sabemos se nos rodeia um labirinto,
um secreto cosmos ou um caos imponderável. O nosso
mais grato dever é imaginar que há um labirinto e
um fio; talvez o encontremos e o percamos num acto
de fé, numa cadência, no sonho, nas palavras que se
chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
Cnossos, 1984
JORGE LUIS BORGES
Os Conjurados
DIFEL . 1985
9.3.12
Ensaios fotográficos . Manoel de Barros
O PROVEDOR
Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para
ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.
MANOEL DE BARROS
POESIA COMPLETA
CAMINHO 2011
Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
as tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para
ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
e os lírios do campo.
MANOEL DE BARROS
POESIA COMPLETA
CAMINHO 2011
Coisas sensíveis em equilíbrio - MANUEL ZIMBRO
...
o que quer que seja só pode ser abordado segundo um aspecto,
e, segundo esse aspecto é registado na memória.
é impossível abordar e registar completamente uma Coisa, apenas se regista uma parte;
aquela que importa ou que convém.
daí que, mesmo útil, todo o registo seja parcial.
...
história secreta da aviação
notas com gravidade para pôr em orbita uma aspiração comum
SHINGEN MANUEL ZIMBRO
PORTA33
Ilha da Madeira - 1997
o que quer que seja só pode ser abordado segundo um aspecto,
e, segundo esse aspecto é registado na memória.
é impossível abordar e registar completamente uma Coisa, apenas se regista uma parte;
aquela que importa ou que convém.
daí que, mesmo útil, todo o registo seja parcial.
...
história secreta da aviação
notas com gravidade para pôr em orbita uma aspiração comum
SHINGEN MANUEL ZIMBRO
PORTA33
Ilha da Madeira - 1997
5.3.12
.
longe,
as cinzas não se movem
[ só a memória é matéria de reconhecimento ]
caminho meio andado
uma leve brisa sem origem específica
[ ignoro a vida da natureza ]
mexe na superfície mais vulnerável
antes dos pés pisarem
já o corpo sopra
as partículas mais finas da vulnerabilidade
cinzas, corpo dos pés
a mesma forma de outra ignorância minha
.
longe,
as cinzas não se movem
[ só a memória é matéria de reconhecimento ]
caminho meio andado
uma leve brisa sem origem específica
[ ignoro a vida da natureza ]
mexe na superfície mais vulnerável
antes dos pés pisarem
já o corpo sopra
as partículas mais finas da vulnerabilidade
cinzas, corpo dos pés
a mesma forma de outra ignorância minha
.
20.2.12
SOM PURO - António Barahona
Sentado a esta mesa,
frente a um relógio sem ponteiros,
contemplo este momento
parado em grande plano
de som puro
Envelheço vidente e severo,
recolhido,
de tudo despojado menos
d´estar vivo.
O SOM DO SÔPRO
ANTÓNIO BARAHONA
Poesia Incompleta - 2011
16.2.12
A EQUAÇÃO DE DRAKE . MANUEL ANTÓNIO PINA
( Numa exposição de Ilda David )
Entre duas águas
( entre H e HO )
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.
Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.
9/5/99
MANUEL ANTÓNIO PINA
NENHUMA PALAVRA
E NENHUMA LEMBRANÇA
ASSÍRIO&ALVIM
Entre duas águas
( entre H e HO )
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.
Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.
9/5/99
MANUEL ANTÓNIO PINA
NENHUMA PALAVRA
E NENHUMA LEMBRANÇA
ASSÍRIO&ALVIM
14.2.12
7
sem promessas ou castelos
sabemos que sempre
é hoje
e a casa de pele
porosa às palavras
com língua dentro
imagens | Kitsune JOÃO PENALVA
arranjo | CRISTINA BARTLEBY
4.2.12
DÍVIDA . Carlos Nejar
A dívida aumenta.
A do país e a nossa.
Cada manhã sabemos
que se acumula dívida.
A grama que pisamos
é divida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
Antologia Poética de CARLOS NEJAR
DÍVIDA de ÁRVORE DO MUNDO - 1977
Prefácio, organização e selecção de António Osório - Pergaminho
A do país e a nossa.
Cada manhã sabemos
que se acumula dívida.
A grama que pisamos
é divida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.
Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.
A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.
A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.
Antologia Poética de CARLOS NEJAR
DÍVIDA de ÁRVORE DO MUNDO - 1977
Prefácio, organização e selecção de António Osório - Pergaminho
31.1.12
Manusmriti ( As Leis de Manu ) . ROSA DO MUNDO
.
Índia Manusmriti ( As Leis de Manu )
Índia Manusmriti ( As Leis de Manu )
CRIAÇÃO
Ao fim desse dia e noite, aquele que estava adormecido acorda, e depois de acordar, cria a mente, que é simultaneamente real e irreal.
A mente, impelida pelo desejo de criar, desempenha a tarefa da criação transformando-se a si mesma, e é daí criado o éter; dizem que o som é à natureza deste.
Mas do éter, modificando-se a si mesmo, floresce o vento puro e poderoso, veículo de todos os perfumes; diz-se possuir a qualidade do tacto.
Do vento que se transforma nasce a luz brilhante, que ilumina a dissipa a escuridão; diz-se possuir a qualidade da cor.
E da luz, que se modifica a si mesma, nasce a água, possuindo a qualidade do paladar, e da água vem a terra que tem a qualidade do olfacto; é a criação no seu início.
TRAD.: MANUEL JOÃO MAGALHÃES
R O S A DO M U N D O
2001 POEMAS PARA O FUTURO
ASSÍRIO&ALVIM
ASSÍRIO&ALVIM
A LIÇÃO DOS GRAFITTI . álvaro lapa
Varel caminha agora no campo ameno dos cactos, das trepadeiras, dos coelhos. Vai olhando em volta, satisfeito pela aragem que de momento se elevou. Afasta alguma sarça mais cerrada, busca o caminho por entre arbustos cada vez mais duros e a atenção eleva-se-lhe para o sol que oscila entre os ramos. O terreno desce agora para um nítido vale onde avista pedras e um regato. Escorrega até ao fundo do pequeno abismo poeirento, e salta o regato para a outra margem. Sombrio, o lugar. Senta-se no chão e agarra o solo. A seu lado uma pedra grande, de sob cuja poeira irradia um nítido traçado intencional. Limpa e lê :
O CAMPO É MUITO VASTO.
álvaro lapa raso
como o chão
editorial estampa 1977
O CAMPO É MUITO VASTO.
álvaro lapa raso
como o chão
editorial estampa 1977
26.1.12
EM CÍRCULO, OUVI . PAUL CELAN
.
EM CÍRCULO, OUVI
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas -
Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.
O grito de uma flor
anseia por uma existência
PAUL CELAN
A MORTE É UMA FLOR
POEMAS DO ESPÓLIO
EDIÇÃO BILINGUE
TRADUÇÃO, POSFÁCIO E NOTAS DE JOÃO BARRENTO
COTOVIA
EM CÍRCULO, OUVI
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas -
Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.
O grito de uma flor
anseia por uma existência
PAUL CELAN
A MORTE É UMA FLOR
POEMAS DO ESPÓLIO
EDIÇÃO BILINGUE
TRADUÇÃO, POSFÁCIO E NOTAS DE JOÃO BARRENTO
COTOVIA
24.1.12
BEATITUDE . Nuno Júdice
.
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Publicações Dom Quixote
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice
Pedro, Lembrando Inês
Publicações Dom Quixote
23.1.12
AS MUSAS CEGAS . herberto helder
.
IV
Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minutos a minutos mais concretos.
A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, e o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.
Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro de casa.
No mundo tão concreto.
herberto helder
POESIA TODA
assírio&alvim
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.
Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro de casa.
No mundo tão concreto.
herberto helder
POESIA TODA
assírio&alvim
8.1.12
Friedrich Hölderlin . FRAGMENTOS DE PÍNDARO
O Infinito.
Se da justiça o muro,
O alto, ou a sinuosa ilusão eu
Escalo, e assim, a mim mesmo me
Circunscrevendo, me vivo
Para fora, quanto a isso
Tenho num duplo sentido
O ânimo para o dizer com precisão.
Uma graça do sábio, e o enigma quase ficaria por resolver. A oscilação e o conflito entre justiça e sagacidade resolve-se de facto apenas na relação ininterrupta. " Tenho num duplo sentido o ânimo para dizer com precisão. " Que eu encontre então a coesão entre justiça e sagacidade, que terá de ser atribuída não a elas mesmas mas a um terceiro, através do qual elas se mantêm infinitamente ( com precisão ) ligadas, é quanto a isso que tenho um dividido ânimo.
Friedrich Hölderlin
FRAGMENTOS DE PÍNDARO
tradução, notas e posfácio
BRUNO C. DUARTE
ASSÍRIO & ALVIM
25.12.11
coitado do bacalhau
Panamá, Cunas
CANTO DA SOLIDARIEDADE
Distribua-se o peixe do mar,
distribua-se o sável,
distribua-se o peixe-serra pequeno,
distribua-se o sável pequeno,
distribua-se o tubarão,
distribua-se o pargo.
O caminho do peixe, parece que Deus o fez de ouro.
O flautista chama pela rapariga,
diz-lhe que se agarre bem à ponta da sua camisa.
Distribua-se o mero,
distribuam-se as conchas presas às rochas,
distribua-se a lagosta,
distribuam-se os caranguejos,
distribua-se o marisco que vive como se risse com a boca aberta aferrada à rocha,
distribua-se a carne dos moluscos do rio,
distribuam-se os camarões,
distribua-se o mero do rio,
distribua-se a iguana que se esconde na copa da árvore de pau-santo.
De ouro, o caminho do peixe, parece que o fez de ouro,
parece que Deus fez de ouro o caminho do peixe.
CANTO DA SOLIDARIEDADE
Distribua-se o peixe do mar,
distribua-se o sável,
distribua-se o peixe-serra pequeno,
distribua-se o sável pequeno,
distribua-se o tubarão,
distribua-se o pargo.
O caminho do peixe, parece que Deus o fez de ouro.
O flautista chama pela rapariga,
diz-lhe que se agarre bem à ponta da sua camisa.
Distribua-se o mero,
distribuam-se as conchas presas às rochas,
distribua-se a lagosta,
distribuam-se os caranguejos,
distribua-se o marisco que vive como se risse com a boca aberta aferrada à rocha,
distribua-se a carne dos moluscos do rio,
distribuam-se os camarões,
distribua-se o mero do rio,
distribua-se a iguana que se esconde na copa da árvore de pau-santo.
De ouro, o caminho do peixe, parece que o fez de ouro,
parece que Deus fez de ouro o caminho do peixe.
VERSÃO : HERBERTO HELDER
ROSA DOS MUNDOS
2001 POEMAS PARA O FUTURO
2.12.11
O espaço, que ninguém pode desenhar
O espaço, que ninguém pode desenhar, porque é imperceptível como
meio e origem dos nossos gestos e da nossa permanente habitação, é
o fundamento absoluto do nosso ser temporal e da nossa continuida-
de de sempre recomeçada. Se essa coordenada da nossa existência vacila,
perde-se o equilíbrio essencial e a nossa relação viva com o mundo
torna-se impossível e insustentável. Por isso, a construção será uma
construção do espaço com todas as aberturas necessárias para que a
orientação vital se assegure nas grandes linhas das paisagens e nas
passagens que serão as órbitas suaves e frementes de imprevisíveis
astros.
O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa
UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL
edições quasi
edições quasi
15.11.11
personagens em fuga
espero
[
livre
de Quibir ]
e junto à poltrona
amanso
dragões com nuvéns
nevoeiro
com flores
pétalas
com passáros
rebentando olhos na boca
todos
aos pares
espero
[
embutido
na
brecha ]
e
escrevo com flores caídas
nas
núvens do mar
enquanto
pássaros implodem
[
pedaços inocentes ]
arrancados
a dente da garganta de Munch
espero
[
pelos gritos das personagens em fuga ]
mundos e portas
Malditos poetas, mau caminho na terra e no mundo que gosta de alcatrão, novo, laboratorial, sem base fóssil. O mundo tem mundos e portas dentro da porta do mundo, e as raparigas perguntam as respostas sem espelhos ou espelhos das portas no mundo da porta que a rapariga abre, antes da porta, no mundo do espelho apagado na porta de outro espelho... que poeta pode ser o que uma rapariga precisa do mundo? A porta - nada mais - sem espelho, luz ou sombra caída, quando a rapariga não vê a poesia e pergunta ao poema onde está o poeta;
em que bolso escondes a chave?
malditos poemas com poetas dentro, horas deixadas no espelho embaciado, sem estrela ou significante aparentemente plausível, ruminados e mesmo assim mundo para porta com portas e mundos dentro.
11.11.11
4.11.11
os deuses enlouqueceram por um deus
os deuses enlouqueceram por um deus
loucos perigosamente deuses
os loucos devem ser loucos
sem deuses nem deus
deus normalmente louco
enfartou-se em nome dos deuses
29.10.11
outro eu
paredes construídas
alvenaria ou outras
invisivelmente circulares - dentro
ou fora impenetráveis
e o ar pulmonar da respiração
fixa os poros indisponíveis
outros
indizível
circulação ou existência
alvenaria ou outras
invisivelmente circulares - dentro
ou fora impenetráveis
e o ar pulmonar da respiração
fixa os poros indisponíveis
outros
indizível
circulação ou existência
9.10.11
estando numa ilha, a ilha é forma inacabado, círculo não fechado. mesmo que se inicie a viagem num ponto rigorosamente geométrico, kandinskiano - interior|exterior, a chegada a esse ponto - exterior|interior, nunca é uma sucessão de pontos iguais: o caminho relevado, conta-nos sempre uma história diferente. o ar que se respira num ponto não é nunca o mesmo que no ponto anterior ou no seguinte. mesmo na dureza, que pensamos ser a monotonia da passagem do tempo, igual pela ocultação da diferença da respiração, pelo entropeço da obrigação de não sentir, está sempre uma variação desconhecida, se, nos proporcionarem a possibilidade de podermos pensar, e pensando, esforço necessário, sentirmos que não existem ilhas. a água é matéria que nos suporta para podermos caminhar, as ondas rebentadas voltam diferentes contendo elementos anteriores, mas outras. as núvens são ondas que rebentaram e suavemente subiram para carregadas baixarem num outro ponto contendo partículas dos anteriores. somos sempre o outro, não podemos ser ilhas.
era bonito que este espaço de tempo que por aqui ando, ouvisse menos vezes - não há almoços grátis! o que ganho com isso?
era bonito que este espaço de tempo que por aqui ando, ouvisse menos vezes - não há almoços grátis! o que ganho com isso?
5.10.11
Bolso|Bolsa
Despi o bolso. Encontrei nada. Nada, não, vazio! O silêncio é nada? O escuro é nada?
Vi a bolsa, as flutuações, perdas e ganhos, rapidez de variações, comentários sobre o vazio das medidas, quilómetros ou toneladas para os mercados... e encontrei o que nos vai faltando. Mercado paralelo, o nosso mercado, paralelo ao deles. Nada que o vazio não nos faça entender que é urgente criar outros pontos de perspectiva, sem fuga, para compor a justeza da volumetria.
Vi a bolsa, as flutuações, perdas e ganhos, rapidez de variações, comentários sobre o vazio das medidas, quilómetros ou toneladas para os mercados... e encontrei o que nos vai faltando. Mercado paralelo, o nosso mercado, paralelo ao deles. Nada que o vazio não nos faça entender que é urgente criar outros pontos de perspectiva, sem fuga, para compor a justeza da volumetria.
21.9.11
levadas
pés - leves,
finos - desamarrados
de cordas etéreas
fluído caído
como cabelos espantados
pela gravidade do ar
varanda, a varanda aberta,
que o mar puxa para os olhos
deixados na cama
desprotegidos do corpo
finos - desamarrados
de cordas etéreas
fluído caído
como cabelos espantados
pela gravidade do ar
varanda, a varanda aberta,
que o mar puxa para os olhos
deixados na cama
desprotegidos do corpo
25.6.11
especular
.
medindo
olhos apoiados em neurónios
o espaço da memória
|varal sitiado, encoberto |
encontro peças inteiras
alumiadas
clareiras abertas
por vontades alheias
pode o tempo
significar agora e depois
se antes escorreu
gretando superfícies duras
entranhando-se em lençóis freáticos
lavados no mar
pode,
se registado
em espaços memoriados
de vontades próprias
alheadas da origem
.
medindo
olhos apoiados em neurónios
o espaço da memória
|varal sitiado, encoberto |
encontro peças inteiras
alumiadas
clareiras abertas
por vontades alheias
pode o tempo
significar agora e depois
se antes escorreu
gretando superfícies duras
entranhando-se em lençóis freáticos
lavados no mar
pode,
se registado
em espaços memoriados
de vontades próprias
alheadas da origem
.
23.6.11
ca|c|os . [re]construção
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
moer os cacos
em caos mais profundo
verter lentamente plasticidade ligante
em movimento elíptico
tangendo linhas tracejadas
em urdidura anterior
.
22.6.11
21.6.11
17.6.11
ca|c|os
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
parte-se sempre
de algum sítio alguma coisa
nunca se volta
só às memórias
e as pessoas também passam
atarefadas
na construção
da memória que querem
umbigos
apertados
reduzidos a um movimento
sem desperdícios
.
9.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
perfil sonoro |sem queda|
um som vocal
em amplitude lírica
desconhecida
sem pauta
na dimensão que os mestres
procuram para a eternidade
voz cadenciada
tapada
por efémero corte
revoei
ao corpo originário
empedernido
antes
vi uma história
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
reescrito a 2017
.
7.5.11
há vidas que assustam a pa|lavra [ .... ] em construção
.
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
via tonalidades estampadas
intensas ligações
de realidade partilhável
andamentos diversos
macerava
abismos alheios
traduzia cada palavra
observada nos olhos
ultimada nos corpos
-
mas
entupia o verbo necessário
entropia madura
momice para estancar
ti nha a estrutura do edifício
incluída no caminho. início de viagem
há vidas que assustam
a pa|lavra [ ]
em construção
história de OsaR
raul albuquerque . objecto a publicar em Maio de 2011 . edição de autor
.
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