"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas

28.1.13

27.1.13

REMORSO POR QUALQUER MORTE - JORGE LUIS BORGES


Já livre da memória e de qualquer esperança,
quase futuro, ilimitado, abstrato,
não é um morto, o morto: ele é a morte.
Como esse Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se os predicados,
o morto ubiquamente alheio
é só a perdição e ausência do mundo.
Roubamos-lhe tudo,
não lhe deixamos uma cor nem uma sílaba:
é este o pátio que os seus olhos já não partilham
e aquele o passeio onde perscrutou a sua esperança.
Até o que pensamos
poderia ele pensar;
repartimos por nós como ladrões
todo o caudal das noites e dos dias.


Fervor de Buenos Aires  ( 1923 )


JORGE LUIS BORGES

Obra Poética Vol. 1
Trad.: Fernando Pinto do Amaral  .  Quetzal  setembro 2012

21.1.13

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão


O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )



g;

Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.

Nunca saberás dizer como se move sobre as águas
                                                              [a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.

Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste

comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.



MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão
CAMINHO  2007  .   poesia o campo da palavra

19.1.13

O Aprendiz Secreto - António Ramos Rosa



Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo, o construtor sobe a uma torre de pedra para meditar um pouco. A plenitude da tranquilidade é perfeita nos campos fulvos e ondulados em redor, coberto de ervas altas, de  flores e arbustos e marginados por um riacho sob a penumbra verde de um arqueado tecto de folhagem. Dir-se-ia que o olhar do construtor encontrou o ser em extensão, o ser que se oferece, no seu mutismo eloquente, e ao mesmo tempo se guarda no mesmo espaço do seu tranquilo esplendor. A meditação não é mais do que a contemplação de uma matéria que contem em si o excesso da sua energia calma e a densidade materna que envolve todas as interrogações e torna supérfluo e intruso o pensamento. Por isso o construtor se integra na paisagem  e, reflectindo-a, não a elabora nem a altera. Toda a sua vida está intacta e plenamente segura na indistinção entre o seu íntimo e a túmida e fresca serenidade da paisagem que o envolve. (...)


O APRENDIZ SECRETO
ANTÓNIO RAMOS ROSA

Quasi  .  1ª EDIÇÃO, JANEIRO 2001

1.1.13

GUARANIS ( Mito da criação ) ROSA DO MUNDO



Nhamandu, primeiro pai verdadeiro!
é sobre a terra que Nhamandu Grande Coração,
divino espelho do saber das coisas,
se anima.
Tu que fazes com que se animem
aqueles a quem deste o arco,
eis: de novo nós nos animamos.
As coisas são assim: quanto às Palavras indestrutíveis,
as quais nada, jamais, enfraquecerá,
nós,
os pouco numerosos órfãos das coisas divinas,
nós as repetiremos, animandos-as.
Que nos possamos então animar
e animar-nos uma vez mais,
Nhamandu, primeiro pai verdadeiro!

Nhamandu, primeiro pai verdadeiro,
a tua divindade que é uma,
do teu saber divino das coisas,
saber que desdobra as coisas,
faz com que a chama, faz com que a bruma
se engendrem.

Ele ergueu-se:
do seu saber divino das coisas,
saber que desdobra as coisas,
o fundamento da Palavra, ele sabe-o por si próprio.
Do seu saber divino das coisas,
saber que desdobra as coisas,
o fundamento da Palavra,
ele o desdobra, desdobrando-se,
ele faz disso a sua própria divindade, o nosso pai.
A terra ainda não existe, reina a noite originária,
não existe o saber das coisas:
o fundamento da Palavra futuro, ele a desdobra então,
disso faz a sua própria divindade,
Nhamandu, primeiro pai verdadeiro.

Conhecido o fundamento da Palavra futura,
No seu divino saber das coisas,
saber que desdobra as coisas,
ele sabe então por si próprio
a fonte do que está destinado a reunir.
A terra não existe ainda,
reina a noite originária,
não existe o saber das coisas:
ele sabe então por si próprio
a fonte do que está destinado a reunir.

                                    TRAD.: VASCO DAVID


R O S A   DO   M U N D O
2001 POEMAS PARA O FUTURO
ASSÍRIO&ALVIM  .   3ª ED. AGOSTO 2001


31.12.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão

O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )



f;

Ouves o desconcerto: essas aves rasgam o sangue
que as inventa e cantam roucas, crocitam e grasnam
ásperas o amargo e doce crepúsculo da manhã

que outra vez no teu corpo nasceria.

Ouves também esse verão antigo. E depois
escutarás a estação que traduz as coisas
para mais perto do seu nome

e abre a árvore ao claro incêndio das suas aves.

                     Folheando-a, a mão do mundo

dobrava a noite que entrava
enquanto o mar descia o amor até aos corpos
e isso era durante séculos uma enseada clara.


MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão
CAMINHO  2007  .   poesia o campo da palavra


30.11.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão


O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )



e;

Olhas a lenta e pastosa sintaxe do mundo de cá
que te cerca de uma a outra margem e assobia
íntima e falsa beijando na tua nuca o beijo próximo

e verdadeiro dessa asa que da loucura dizem

dulcíssima. É apenas o som mecânico e oxidado
do ferro velho, no lusco-fusco dos bastidores
um teatro esventrado pela flor negra da carne

azul, essa flor que cresce carnívora.
E vês então a boca do mar abocanhando o rio

e regurgitando os detritos dos humanos: aviões
elegantíssimos e por demais eficazes; bombas
giratórias e algálias do mais puro cristal.


MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão
CAMINHO  2007
poesia o campo da palavra

27.11.12

O QUE O DISCÍPULO ESCREVEU - Manuel António Pina



" Se tudo é ilusão,
se escrevo a ilusão de um poema ( o que quer que um poema seja ),
ou  a  ilusão  de  um  poema  se  escreve  a  si  mesma  ( o que quer
                                                                     que escrever seja ),
através de mim ( uma ausência ),
se a própria consciência disso é ilusão,
se a Palavra escreve através de palavras, de verbos e de
                        substantivos partilhando a mesma ilusão,
como um espelho reflectindo-se a si mesmo, uma sombra,
e se essa sombra é, por sua vez, a sombra de uma sombra de
                                                                       uma sombra
da Sombra,
se o Definido, no entanto, como um espesso coração, pulsa no
                                                        indefinido e no fugidio,
ou se paradamente olha
fitando o próprio olhar,
se Homero, e Shakespeare, e Santo Agostinho,
e Buda, e Bodhidarma,
são fugazes reflexos desse olhar,
se o discípulo pergunta e o mestre não responde, ou responde
            com alguma frase sem sentido ( pois não há sentido ),
ou se lhe bate, ou se o escorraça ( pois tudo é indiferente ),
se a Indiferença é, também ela, provavelmente, indiferente,
e é indiferente que, atrás de si, permaneça, ou não permaneça,
                                                                    rasto ou sombra,
se de outro modo ou do mesmo modo
algo, alguma coisa, nenhuma coisa..."


Isto foi o que o discípulo escreveu.
No entanto que mão ( que mão Real ) segurou a sua mão?


MANUEL ANTÓNIO PINA
NENHUMA PALAVRA
E NENHUMA LEMBRANÇA

ASSÍRIO&ALVIM   SETEMBRO 1999

21.11.12

ESCOLHIDO PELAS ESTRELAS - Zbigniew Herbert



O SENHOR COGITO E A IMAGINAÇÃO

1.

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialéctica

as selvas de quadros convulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha recta
a atracção exercida pela terra


ZBIGNIEW HERBERT
ESCOLHIDO PELAS ESTRELAS

antologia poética
apresentação e versões
JORGE SOUSA BRAGA
ASSÍRIO&ALVIM  -  OUTUBRO 2009

14.11.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão


O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )

d;

e tu vês estas estranhas aves que são nomes velozes
e, desferidas, cicatrizam no corpo da terra o céu aberto
e a demais matéria do tempo que não cessa.
Outrora seriam rios e montanhas; florestas e deserto

foram depois estaleiros e refinarias desafectadas;
ou esse rebanho de gruas vermelhas que consigo
traziam a tempestade e deslocavam a cidade.

As paisagens mudavam de lugar e perdidos eram
os lugares e as gentes com quem nasceras.


MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão
CAMINHO  2007
poesia o campo da palavra

4.11.12

Maria Gabriela Lhansol - O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO

42

Meu menino passado,
De olheiras fundas e de olhos travessos,
Abertos e tapados de azul.
Eu contesto a cor, eu contesto
O que  for que seja imóvel. Se o azul
não for profundo, veloz e apurado,
Teu olhar verá apenas o que sabe.


MARIA GABRIELA LLHANSOL
O COMEÇO DE UM LIVRO É PRECIOSO

desenhos de ILDA DAVID´
ASSÍRIO&ALVIM  -  2003

14.10.12

Midgarthormr - J.L.BORGES


Sem fim o mar. Sem fim o peixe, a verde
serpente cosmogónica que encerra,
verde serpente e verde mar, a terra,
como ela circular. A boca morde
a cauda que vem dos remotos nexos
do outro confim. Ao nosso redor
o forte anel é tempestade, fulgor,
sombra e rumor, reflexos de reflexos.
É também a anfisbena. Eternamente
olham-se sem horror os muitos olhos.
Cada cabeça fareja crassamente
os ferros da guerra e os despojos.
Sonhado foi na Islândia. Pelos abertos
mares foi dividido e receado;
voltará com o barco amaldiçoado
que se arma com as unhas dos mortos.
Alta será a sua inconcebível sombra
sobre a terra pálida no dia
de altos lobos e esplêndida agonia
do crepúsculco esse que não se nomeia.
A sua imaginária imagem nos macula.
Pela madrugada o vi no pesadelo.

JORGE LUIS BORGES
Os Conjurados

DIFEL   1985  2ª edição
tradução de Maria da Piedade M. Ferreira e Salvato Teles de Meneses

1.10.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão

O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )


c;

O crepúsculo do entardecer
sobre o eixo do tempo e sobre si mesmo rodando
abria a venenosa vertigem, a sua grande flor azul

e negra, esta flor de luto fechando-se sobre a terra.

É então que tendo talvez mudado a mão das águas
ou interrompido o tempo a mão do mundo
se terá lançado contra a solidão a voz sem mais -

era a noite nascente : a noite que apenas nascia


MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão
CAMINHO  2007
poesia o campo da palavra

25.9.12

RILKE - AS ELEGIAS DE DUÍNO

A QUINTA ELEGIA
Dedicada à Sra. Hertha Koenig

...

   E agora tu, ó encantadora,
tu por cima de quem saltaram,
silenciosas, as mais atraentes alegrias. É possível
que as franjas do teu vestido sejam felizes em vez de ti -- ,
ou que a verde seda metálica
que te cobre os jovens seios rijos
se sinta infinitamente acarinhada e repleta.

Tu,
sempre diversa em todas as oscilantes balanças do equilíbrio
fruta de mercado da insensibilidade,
publicamente exposta dos ombros para baixo.

Onde, oh onde fica o lugar - trago-o no coração - ,
em que durante muito tempo eles ainda não podiam, nem um do outro
se soltavam, como animais que se cobrem, não
verdadeiramente acasalados ; --
em que os pesos continuam a pesar;
em que ainda no giro vão
das varas vacilam
os pratos...

E de súbito nesse penoso lugar nenhum, de súbito surge
o sítio invisível, onde a pura escassez
incompreensivelmente se transforma - , dá o salto
para esse excesso vazio.
Onde sem números
se abre a conta de muitas parcelas.

...

AS ELEGIAS DE DUÍNO
RAINER MARIA RILKE

ASSÍRIO&ALVIM
introdução e tradução  MARIA TERESA DIAS FURTADO
2ª EDIÇÃO . 2002

5.9.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO - ( 2005-2007 ) . Manuel Gusmão


O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )


b;

Tu, de pé, recortado pelo ar e pelos pássaros, acesso
negro, procuravas o lugar incerto em que o rio e o mar
se encontram. E teria talvez mudado a mão

das árvores que em mudando o vento
soprariam para o largo a tua vida. - Contos largos
se mo permitem. E, contudo, estreita ficava
a vida ao fim de ser contada. Contos e recontos:

assim o rio se perdera noutro mar
como na voz de quem cantava sem manhã

MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão

CAMINHO  2007
poesia o campo da palavra

4.9.12

LUGAR | herberto helder



                                    II

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
de silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, raios límpidos.
Até à manhã orçando
pendúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinzas transformada.
Em dedicatória sangrenta
...

herberto helder
POESIA TODA

ASSÍRIO&ALVIM    NOVEMBRO 1990


29.8.12

De Parts of a World - WALLACE STEVENS


DA POESIA MODERNA

O poema da mente no acto de encontrar
Quanto baste. Nem sempre teve
Que encontrar: a cena estava montada; repetia o que
Estava no guião.
                         Então o teatro foi mudando
Para outra coisa. Seu passado era uma lembrança.
Ele tem que estar vivo, que entender o discurso do sítio.
Tem que enfrentar os homens do tempo e encontrar-se com
As mulheres do tempo. Tem que pensar sobre a guerra
E tem que encontrar quanto baste. Tem
Que construir um novo palco. Tem que estar nesse palco
E, como um actor insaciável, vagarosamente e
Com meditação, dizer palavras que ao ouvido,
Ao mais delicado ouvido da mente, repitam,
Exactamente, o que ele quer ouvir, ao som
Das quais, uma audiência invisível escuta,
Não a peça, mas a si mesma, expressa
Numa emoção como duas pessoas, como de duas
Emoções a tornarem-se numa. O actor é
Um metafísico no escuro, tangendo
Um instrumento, tangendo uma corda de metal que dá
Sons a passarem por súbitas exactidões, na totalidade
A conter a mente, abaixo da qual não pode descer,
Além da qual não quer elevar-se.
                                                   Deve
Ser o encontro uma satisfação, e pode
Ser de um homem patinado, uma mulher dançando, uma mulher
Penteando-se. O poema do acto da mente.

FICÇÃO SUPREMA
poemas
WALLACE STEVENS

edição bilingue - tradução e prefácio
Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos
ASSÍRIO&ALVIM  -  Junho 1991

27.8.12

ELEGIAS - FRIEDRICH HÖLDERLIN

                              
                              PRANTO DE MÉNOM POR DIOTIMA


                                                   1

Todos os dias saio em busca de algo diferente,
     Demandei-o há muito por todos os atalhos destes campos;
Além nos cumes frescos visito as sombras,
     E as fontes; o espírito erra dos cimos para a planície,
Implorando sossego; tal como o animal ferido se refugia nas florestas,
     Onde antes repousava pelo meio-dia à sua sombra, fora de perigo;
Mas o seu verde abrigo já lhe não dá novas forças,
     O espinho cravado fá-lo gemer e tira-lhe o sono,
De nada servem o calor o calor da luz nem a frescura da noite,
     E em vão mergulha as feridas nas ondas da torrente.
E tal como é inútil à terra oferecer-lhe a agradável
     Erva curativa e nenhum zéfiro consegue estancar o sangue que fermenta,
O mesmo me acontece, caríssimos! Assim parece, e não haverá ningém
     Que possa aliviar-me da tristeza do meu sonho?

FRIEDRICH HÖLDERLIN
ELEGIAS

tradução e prefácio
Maria Teresa Dias Furtado
ASSÍRIO&ALVIM  .  Abril 2000

26.8.12

ARRANJOS PARA ASSOBIO - Manoel de Barros



SUJEITO

Usava um Dicionário do Ordinário
com 11 palavras de joelhos
inclusive bestego. Posava de esterco
para 13 adjetivos familiares,
inclusive bêbado.
Ia entre azul e sarjetas.
Tinha a voz de chão podre.
Tocava a fome a 12 bocas.
E achava mais importante fundar um verso
do que uma Usina Atômica!
Era um sujeito ordinário.


MANOEL DE BARROS
POESIA COMPLETA
CAMINHO  -  2011
a edição portuguesa reproduz integralmente o texto da edição brasileira

24.8.12

QUATRO ANDAMENTOS PARA UM ALFABETO ( 2005-2007 ) Manuel Gusmão


1. O FUTURO OUTRORA   ( a; - g; )


a;

Teria talvez mudado a mão do vento; ou súbito seria
um ritmo outro nas árvores invadindo a partitura;
Ou talvez apenas fosse que ali

perto ou longe - tendo podido cantar  -  então
                                                       [cantasse.

Teriam vibrado os contornos das figuras; a voz
teria posto fogo às páginas que escurecidas
redemoinhavam nos paredões abandonados

junto ao rio, demasiado
fundo, demasiado lento, demasiado antigo.

MANUEL GUSMÃO
A Terceira Mão

poesia o campo da palavra   CAMINHO  2007





22.8.12

Notas sobre a melodia das coisas - Rilke

I

Estamos mesmo no princípio, percebes? Como
que antes de tudo.
Com mil e um sonhos para trás de nós e parados.

II

Não consigo imaginar um saber mais sagrado do
que este:
O homem deve tornar-se um principiante.
O que escreve a primeira palavra de uma tirada
secular.

Notas sobre a melodia das coisas
RAINER MARIA RILKE
AVERNO | 2011  
Tradução  SANDRA FILIPE

18.8.12

AS LEIS DO CAOS - Gastão Cruz

A ARTE DOS VERSOS


1.

O poeta persegue o movimento do mundo, procura fixá-lo,
dar-lhe uma imagem estável. Trata-se de um trabalho destinado 
ao malogro, mas é no permanente renovar desse equívoco que
se origina a poesia. E porque utiliza um instrumento tão fluido
como o próprio real, o poeta transforma o encontro sucessivamente
adiado na ilusão que cada poema julga fixar, faz dessa ilusão a
energia da imagem que não se fixa, o ponto de fuga em que se
interceptam a poesia e a vida.

AS LEIS DO CAOS . GASTÃO CRUZ
ASSÍRIO&ALVIM  - SETEMBRO 1990  

15.8.12

Yusuf Al-Khal - SÍRIA


basta! disse ela
a dor está nos meus lábios
a dor está no meu peito
estou todo dorido
basta!
fecha a luz e dorme,
pontos negros mancham a luz da aurora.

dormirei
e o mundo dormirá comigo
nada de sonhos
que nos acordem, a morte dos sonhos acorda-nos

vigilante está uma floresta
que arde até às cinzas.

trad.: ADALBERTO ALVES
ROSA DOS MUNDOS
2001 POEMAS PARA O FUTURO
ASSÍRIO&ALVIM - Direcção editorial  MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO

15.7.12

" Memórias Internadas"

... alicerçada na fome, a impertinência das artes atinge a profundeza aparente da ignorância. Nenhum carácter é validado quando ignora as texturas formicantes da vida. "

ra in  " Memórias Internadas "

24.4.12

A fossa de mentirosos indelicados,... EZRA POUND


...


A fossa de mentirosos indelicados,
               paul de estupidezes,
estupidezes malévolas, e estupidezes,
o solo, pus vivo, cheio de bicheira,
larvas mortas gerando larvas vivas,
               donos de bairros de lata,
usurários espremendo piolhos, lacaios da autoridade,
pets-de-loup*, sentados em pilhas de livros petrificados,
obscurecendo os textos com filologia,
               escondendo-os sob as suas pessoas,
o ar sem refúgio de silêncio,
               a corrente de piolhos, o ganhar de dentes,
e acima disso o palrar de oradores,
               o arrotar-de-cu dos pregadores.
               E Invidia,
a corruptio o fœtor, o fungus,
animais líquidos, ossificações derretidas,
apodrecer vagaroso, combustão fétida,
               beatas mascadas, sem dignidade, sem tragédia,
....m Episcopus, acenando um preservativo cheio de baratas,
monopolistas, obstrutores do conhecimento,
               obstrutores da distribuição.


* Literalmente significando peidos de lobo, a palavra refere-se aos académicos


DO CAOS À ORDEM (VISÕES DE SOCIEDADE DOS CANTARES DE EZRA POUND)
EZRA POUND
edição bilingue - tradução e prefácio - Luísa M.L.Q. Campos - Daniel Pearlman
ASSÌRIO&ALVIM  1993



23.4.12

LIVRO DE PRÉ-COISAS - Roteiro para uma excursão poética no Pantanal . Manuel de Barros



PONTO DE PARTIDA


ANÚNCIO
Este não é um livro sobre o Pantanal. Seria antes uma
anunciação. Enunciados como que constantivos. Man-
chas. Nódoas de imagens. Festejos de linguagem.
    Aqui o organismo do poeta adoece a Natureza. De
repente um homem derruba folhas. Sapo nu tem voz
de arauto. Algumas ruínas enfrutam. Passam louros
crepúsculos por dentro dos caramujos. E há pregos pri-
maveris...
    ( Atribuir-se natureza vegetal aos pregos para que
eles brotem nas primaveras... Isso é fazer natureza.
Transfazer.)
    Essas pré-coisas de poesia


Manuel de Barros
POESIA COMPLETA
CAMINHO 2011

12.4.12

OS VIVENTES (1979) - Carlos Nejar

    NICANOR E SEU CAVALO


Nunca vi ninguém olhar
com tal ternura um cavalo
e um cavalo navegar
nos seus olhos, onde é mar
e o mar, apenas cavalo.


Nunca vi ninguém olhar
Nicanor naqueles olhos
que pareciam findar
onde os espaços se foram.
Nicanor sabia olhar
sem o menor intervalo
como se lhe fosse apanhar,
a toda brida, os andares.


E se podiam falar
num trote pequeno ou largo,
com rédea de muito amparo,
o corpo estando a montar
a eternidade cavalo.




Antologia Poética de Carlos Nejar
Prefácio, organização e selecção de ANTÓNIO OSÓRIO
Pergaminho 2003

10.4.12

A construção implicava um silêncio - António Ramos Rosa

.
A construção implicava um silêncio e um sono em que a origem se mantivesse envolta no pólen da sua inocência nativa. Sem veemência e sem precipitações, o construtor iria colocando as pedras ao ritmo da respiração e acariciando os ângulos que iria entrevendo como se estivesse a modelar um rosto de uma fragilidade extrema. No interior de um corpo vivo, que seria tanto seu como de um outro, a luz do horizonte iluminaria a penumbra da indizível sede e daria à sua casa o flexível equilíbrio de uma construção aberta à insondável germinação da terra.

O Aprendiz Secreto
António Ramos Rosa

UMA EXISTÊNCIA DE PAPEL - quasi - 2001

1.4.12





todos os nomes devem ser escritos
sem dedução de significado
[ aqui, do outro lado, entre lados ]

a ar ou sangue sem a secura do acaso

[ respiro água composta de tudo e morro todos os dias ]

e um seixo é grande

quando a lágrima o visitar
[ nunca pedra maquinada ]
sem tempo aprazado 


ra in " Memórias Internadas "