"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas

4.2.12

DÍVIDA . Carlos Nejar

A dívida aumenta.
A do país e a nossa.


Cada manhã sabemos
que se acumula dívida.
A grama que pisamos
é divida.
A casa é uma hipoteca
que a noite vai adiando.
E os juros na hora certa.


Ao fim do mês o emprego
é dívida que aumenta
com o sono. Os pesadelos.
E nós sempre mais pobres
vendemos por varejo ou menos,
o Sol, a lua, os planetas,
até os dias vincendos.


A dívida aumenta
por cálculo ou sem ele.
O acaso engendra
sua imagem no espelho
que ao reflectir é dívida.


A eternidade à venda
por dívida.
A roça da morte
em hasta pública
por dívida.
A hierarquia dos anjos
deixou o céu por dívida.
No despejo final:
Só ratos e formigas.


Antologia Poética de CARLOS NEJAR
DÍVIDA  de ÁRVORE DO MUNDO - 1977


Prefácio, organização e selecção de António Osório - Pergaminho



2 comentários:

  1. Raul, convido a ti e a teus leitores para conhecerem e participarem com suas produções literárias do Urbanasvariedades, o modo long play do Urbanascidades, blog cultural de produção coletiva. Visite urbanasvariedades.blogspot.com. e solte o verbo.
    Um abraço,
    Paulo Bettanin.

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