"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas

6.7.09

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Onde o dia nasce muito cedo
abraçámos o mesmo oceano
na parte do canal orlado de areia quente
e coqueiros paraíso que nos deixava estar

Sentimos o odor forte depois das chuvas
terra e capim aquecidos pelo sol
Não encontrei ainda o incenso certo
Quando chove procuro-o louco de nariz no ar
encontraste?
Tento enganar a memória
fecho os olhos não consigo lá chegar

Nunca mais ouvi a palavra macua
tamboradas funebres soarem das árvores
marrabenta ritmar os corpos suados
chiii minino

Nunca mais senti feijão-macaco
estetado na pele
pêlo de saguim no meu colo
e os amendoins de reserva nas bochechas
a cacimba da manhã

Nunca mais vi terra tão compacta
erguida por por formigas
pessoas da ilha a deixar em repouso
cinzas e flores sobre o mar
feira de domingo em frente de uma catedral

Nunca mais comi farinha de mandioca cozinhada
com peixe seco a que me fazia convidado
coco fresco ralado por um ferro rendilhado
na ponta de um banco
depois de lhe beber a água fresca

A norte deixei a parte da vida
que dizem e sei ser a essência
de quando a inocência nos vai sendo roubada
Mas tinha que estar tão longe
e não conseguir voltar?

Fecho os olhos as memórias fecham
cansado de ausências
Nunca mais fui livre em paisagem infinita


Em que parte abraçaste o Índico?
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2 comentários:

  1. Não abracei o Índico, mas senti as tuas sensações no meio do Atlântico... um abraço, meu amigo.

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  2. sotaosdaalma.blogspot.com9 de setembro de 2009 às 17:34

    Maravilhoso poema, hoje, aqui desde esta terra banhada pelo Indico, posso apreciar a imensidao deste texto.

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