"... faltam-me as vísceras de fora quando as palavras se deixam antever. " in Memórias Internadas
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25.12.11

coitado do bacalhau

Panamá, Cunas
     
                                     CANTO DA SOLIDARIEDADE


Distribua-se o peixe do mar,
distribua-se o sável,
distribua-se o peixe-serra pequeno,
distribua-se o sável pequeno,
distribua-se o tubarão,
distribua-se o pargo.
O caminho do peixe, parece que Deus o fez de ouro.
O flautista chama pela rapariga,
diz-lhe que se agarre bem à ponta da sua camisa.
Distribua-se o mero,
distribuam-se as conchas presas às rochas,
distribua-se a lagosta,
distribuam-se os caranguejos,
distribua-se o marisco que vive como se risse com a boca aberta aferrada à rocha,
distribua-se a carne dos moluscos do rio,
distribuam-se os camarões,
distribua-se o mero do rio,
distribua-se a iguana que se esconde na copa da árvore de pau-santo.
De ouro, o caminho do peixe, parece que o fez de ouro,
parece que Deus fez de ouro o caminho do peixe.



VERSÃO : HERBERTO HELDER

ROSA DOS MUNDOS
2001 POEMAS PARA O FUTURO

11.11.11

se eu pudesse matava o mundo
e incomodava-te com um novo
restante do desejo, se desejo significar
o mundo que não morre nas flores que o mar planta no jardim.

9.10.11

estando numa ilha, a ilha é forma inacabado, círculo não fechado. mesmo que se inicie a viagem num ponto rigorosamente geométrico, kandinskiano - interior|exterior, a chegada a esse ponto - exterior|interior, nunca é uma sucessão de pontos iguais: o caminho relevado, conta-nos sempre uma história diferente. o ar que se respira num ponto não é nunca o mesmo que no ponto anterior ou no seguinte. mesmo na dureza, que pensamos ser a monotonia da passagem do tempo, igual pela ocultação da diferença da respiração, pelo entropeço da obrigação de não sentir, está sempre uma variação desconhecida, se, nos proporcionarem a possibilidade de podermos pensar, e pensando, esforço necessário, sentirmos que não existem ilhas. a água é matéria que nos suporta para podermos caminhar, as ondas rebentadas voltam diferentes contendo elementos anteriores, mas outras. as núvens são ondas que rebentaram e suavemente subiram para carregadas baixarem num outro ponto contendo partículas dos anteriores. somos sempre o outro, não podemos ser ilhas.
era bonito que este espaço de tempo que por aqui ando, ouvisse menos vezes -  não há almoços grátis! o que ganho com isso?

5.10.11

Bolso|Bolsa

Despi o bolso. Encontrei nada. Nada, não, vazio! O silêncio é nada? O escuro é nada?
Vi a bolsa, as flutuações, perdas e ganhos, rapidez de variações, comentários sobre o vazio das medidas, quilómetros ou toneladas para os mercados... e encontrei o que nos vai faltando. Mercado paralelo, o nosso mercado, paralelo ao deles. Nada que o vazio não nos faça entender que é urgente criar outros pontos de perspectiva, sem fuga, para compor a justeza da volumetria.  

17.11.10

A primeira postagem, "click neural", iniciador do blog ( etiquetas a primeira ) começa com "O tempo não espera pela vida" e acaba com " que coisa, a vida é tempo". A assência do conceito permanece, embora se possa questionar a significação de tempo.
Entendo que cada um tem o seu tempo, tem a sua vida única, preciosa e que não lhes podemos pedir para saltem de uma vida para outra, sem tempo para enfrentarem os medos da mudança e mais importante, limparem a vida anterior e ter menos dúvidas sobre a que vem.
Tenho a sorte, de ter percebido que estou inteiro, de peito aberto, desejoso, com fome do que está para vir. Não vou saltar de olho vendados! Entendi que tudo o que me espera, a intensidade, a suavidade, o mel, o polén, o algodão, quando acontecem, o devemos querer até ao limite da elasticidade que o tempo pode suportar, sem quebrar.
Tenho a idade que me permite "saber", que desperdicei muita vida em pouco tempo, o que não é nada de especial, mas conta para alguma coisa. Permite-me ainda saber que quando nos acontecem coisas bonitas, únicas, arrebatadoras o que pensamos estar a perder, ou ter perdido, encontramos como que por golpe mágico e cristalizamos muito do que está para vir.
Vou congelar o meu tempo, embora contrariado, para acertarmos os nossos relógios, relativizando o "click neural" iniciador. Como não consigo hibernar, nem quero, a vida está a ser vivida em "jet lag".

31.12.09

Fui ao Porto

Cheguei...toquei - já desço...a Francisca.
Linda! Não lhe sentia a dimensão do corpo há muito tempo.

Dentro, inundei.
Abracei forte... - cuidado pai!



17.6.09

A solidão - a que fere os ossos e carnes restantes, ausente de palavras ditas, verdadeiramente afectada pela ausência da pele - não é escolha!!! É o que deixamos que seja, é o que deixam que aconteça, é o que esperam perante a invisibilidade da vida. O resto, são inconfidências maltratadas no confessionário das boas vontades flutuantes, agradável horizontalidade.

21.5.09

deus-não-deus


.

Vejo, a ritualização da imagem santa rumo aos braços do cristo-rei, pétreo filho, em missa junto à borda terrena do rio, mãos juntas e olhos na miséria pululante oportunamente servidora de inchados dogmáticos. Desconfio, que deus utilizado não está ali, zangado com uns e outros, por terem abandonado o exemplo da sua mão biológica. Se ali estivesse, jesus, filho de deus e da imaculada, virava os ministérios da praça a que chamam comércio, acompanhado pelos que não estão onde vejo chorar lágrimas secantes, quando o conforto do ordenado chega a meio do mês seguinte, depois dos cremes e gravatas. Esquecem que a maior parte sobrevive como eles agora sentem a vida.
Falta-lhes, talvez, a vivência de um não-deus, o outro, próximo da pele, junto aos olhos, ouvir o bater da essência da vida, reconhecer que uma sincronia pode ser ritmo e arritmo eternamente válidos. Assim, quando somos abalados pelo que aos outros não reconhecíamos, o peso da avassaladora onda, possa ser atenuado pelo que sabemos e pelo outro, não-deus.
Falta-nos acreditar, que podemos ser insuflados por lábios carnudos como na boca de um trompete em permanente jam session
.

11.5.09

Sábado, fui à feira olhar, tocar, cheirar livros e envolver-me com o " Meninos de Ninguém"


Já estava marcado, a Ana ia apresentar o menino dela, "Meninos de Ninguém". Troquei o horário do que viria a ser o "happening", tinha gravado 16 e na verdade era 18. Havia tempo para ver a chuva a regar as fibras que já foram árvores, belo sacrifício, que os "livreiros" teimavam em proteger, "- São baratos, mas temos que cuidar deles...". Pensei que talvez alguns, precisem de água para crescer...Faltavam 20 minutos para as 18, dirijo-me ao stand da Ulisseia e perguntei onde era a apresentação, " Na praça central, mais acima...". Já sabia onde era,( dadas as circunstâncias pensei que...), estrado coberto de vermelho, tenda em rede branca protectora (?), para a autora e convidados oradores e cadeiras debaixo de uma árvore para os assistentes. Espantado e convencido, sigo ao encontro da Ana e do resultado fixado em livro, da pessoa que é, do seu trabalho e talento.
Aceno para marcar presença. Ela gentil sorriu, interrompe e chama-me. Cumprimentos apresentados, vi a Sandra, irmã, que não via há muito tempo. Conversa em dia, saudades mortas e continua bonita ( o Telmo é um homem com sorte ), e vejo algumas pessoas conhecidas, não de aperto de mão, mas de referência enquanto profissionais.

" Happening "

Chovia, adia-se? A tenda afinal só protegia do sol. Nada disso, ainda bem!
Guião rasgado, improviso a nascer e foi bonito de se ver, todos a contribuírem para que a chuva fizesse parte da assistência. Quem estava queria, quem não chegou não queria! Este é um momento único para um criador, sentir que a cortesia não faz parte.
As intervenções foram brilhantes, iluminaram a Ana, que a cada elogio pestanejava (se fosse eu babava-me ), anotava e quando tomou a palavra agradeceu os elogios, explanou o seu posicionamento e motivação profissional. A Julieta Monginho, para além de outros elogios, convido-a a participar em " inquérito" no "seu" tribunal. O Adelino Gomes coloco-a como sua igual, para além de servir de "pé de microfone" como disse, para que a Ana falasse. Toda esta situação, com momentos muito interessantes e participados, só foi possível porque a organização da feira não "pensou" na habitual chuva que aparece por esta altura.
Do Livro, primeiro vou sorver as palavras, depois tentar dizer alguma coisa...vamos a ver se sou capaz!



5.5.09

Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora!


Ontem, sentou-se ao meu lado uma Senhora, e que Senhora!
Cheirava a corpo, nada tirou da idade que tem, rugas todas bem definidas e era bonita. Nada lhe sei da vida, mas deve ter sido dura pela mãos desenhadas pelo tempo. É difícil encontrar senhoras assim, Hedonismo e Narciso andam muito ocupados a tratar das deusas que por ai habitam nos nossos olhos imaginários.
Eu, que não sou nenhum deus nem deusa, deu-me para perder a barriga, rapar o cabelo para apagar a careca e as brancas e tentar que umas deusas que conheço ( não posso ser injusto, elas não são as deusas hedonarcisas ), me dispensem uns segundos do seu olhar.

23.4.09

KITSCH AGRÍCOLA

Quando posso e preciso de confortar o estômago e um café, vou à Casa das Queijadas, aqui em Porto Alto. A variedade e qualidade são interessantes. Para lá chegar passo quase sempre por uma rua que até ontem nada tinha de especial, para além de um condomínio fechado com todas as coisas próprias de quem pensa que vive bem isolado e de forma prestigiosa...etc.
A caminho, parei para ver uma pequena laranjeira, carregada de frutos, com uma cova perfeita para a rega, muito bem atada a uma estaca que serve de guia para medrar direitinha, tudo muito bem feito. Sim senhora, bom trabalho! Vou fotografar para poder mostrar como é que as coisas se fazem à séria. Puxo da máquina, enquadro, faço zoom...não queria acreditar! Desvio a máquina, aproximo-me...e a coisa é de plástico. Até na agricultura... Fotografo, mas por uma razão diferente da inicial. Enquanto caminhava para a queijadinha, a imagem já não me saía da cabeça, bem como as razões que podem levar uma pessoa a trabalhar tanto para tentar enganar-se a si e aos outros. O agricultor Kitsch não come os frutos, os outros não os podem roubar, e assim não está certo! Pensei logo no aproveitamento artístico da coisa; um pomar com a multiplicação do objecto e cova incluída...a instalação estava feita e a justificação conceptual e chocante do caminho da arte e agricultura de mãos dadas, land art...e as leituras políticas e sociais, etc...Logo a seguir a ideia esfumou-se !!! Eu não sou capaz de fazer isto e não posso pedir ao agricultor Kitsch, porque ele " plantou uma " para não ter trabalho. Tenho pena!! A escala de um pomar com um hectare destas coisas ficava brutal!!!